Quinta, 28 Junho 2018 17:40

Belém (22)

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Os mistérios do mercado

(Reprodução de artigos de um dossiê publicado em 2012)

Quando querem almoçar fora, muitos belenenses costumam procurar restaurantes nos quais possam “saborear um pedaço de charque ou de peixe frito acompanhado de uma tigela de açaí sem açúcar”.

Se você ainda não se permitiu esse hábito, azar o seu: você não faz parte do “mercado muito especial” do Pará, que tem sido uma esfinge para os grandes grupos nacionais de supermercado. Sem se dar conta de tais especificidades, esses gigantes de papel acabam sendo devorados pelo monstro ao açaí e tucupi, segundo o diagnóstico da revista Exame, da Editora Abril, em edição de dezembro de 2000.

É assim que, em sete páginas fartas de fotos e elogios, a revista explicou o sucesso de grupos locais, sobretudo o Y. Yamada, e o fracasso de conglomerados econômicos que se deram bem em outros Estados e aqui naufragaram, como o Pão de Açúcar e o Bom Preço. Por aqui, só conseguiram soçobrar à pororoca de consumo a C & A, Arapuã, Riachuelo e Lojas Americanas. Talvez, pensando bem, não menos numerosos do que os casos de insucesso total das mesmas proporções.

A explicação, porém, era dada sem maior indagação, sem ir atrás de razões mais profundas. Levada pelo embalo de teorias oportunistas ou interesseiras, a autora da reportagem tomou, como se fora um almoço especial dos belenenses, hábito alimentar de outra natureza. Se há belenense que sai de casa para almoçar açaí com peixe frito, esse é um excêntrico. O belenense padrão toma o açaí como sobremesa e não lhe dá o status de chamariz para um “almoçar fora”. Mesmo porque depois do açaí vem o embalar na rede, sob o cafuné da nhantã, com uma arara no punho e um jacaré bocejando por baixo (ou seria uma onça ronronando?).

Se, como qualquer mercado, o belenense tem seus mistérios e manias, talvez eles ajudem a explicar parte do sucesso de grupos locais, como o nunca suficientemente festejado Yamada, ou o agora menos em evidência Líder, mas não todo o sucesso – e muito menos o aparente fracasso dos concorrentes nacionais. A capacidade de adaptação e inventiva das quatro gerações de descendentes de Yoshio Yamada não pode ser minimizada. Ela é responsável por parcela expressiva dos resultados do grupo em mais de meio século de empreitada.

Mas na terra do açaí, como na do Marlboro, determinadas regras de comércio, mesmo quando basicamente imutáveis, ajustam-se à rolança do tempo. Num mundo de contabilidade globalizada, o que as redes de supermercados do restante do país podem estar enfrentando com maior dificuldade são os procedimentos gerenciais e administrativos dos grupos locais – e o poder de influência que eles exercem sobre autoridades encarregadas da regulamentação dessas práticas ou da fiscalização do seu exercício – com a devida cor local, é claro.

Talvez um Pão de Açúcar ou um Bom Preço não pudessem adotar, em sua base belenense, uma maleabilidade e inventividade de empreendedores que controlam suas derivações locais com rédea curta, ou podendo alcançá-las com as próprias mãos. Quem sabe não é a causa de tanto estudo e vacilação do mais recente dos grandes do setor, a multinacional Carrefour, ainda à soleira das nossas casas grandes do comércio varejista.

Nessas contas, muito mais do que nos nossos hábitos (que nossos visitantes não conseguem captar com fidelidade, provavelmente porque sua generosidade é um tanto menor do que seus preconceitos e estereótipos, disfarçados de superior bonomia e benevolência), é que devem ser buscadas causas mais profundas, porém mais simples e claras, de toda essa etnologia da desculpa e da enrolação. Mesmo quando cifrada com economês de orelha.

 

 

Saldo negativo

O transporte foi o ponto mais negativo do primeiro governo Edmilson Rodrigues: não acrescentou um palito à gestão do transporte coletivo em Belém. Tudo continuou igual ou pior do que antes, exceto, talvez, pelo acréscimo de personagens ao cabalístico processo de negociação dos reajustes de preço. Os donos de ônibus, com base em planilhas que ainda contêm uma margem de imponderabilidade e manipulação, continuam a pedir o absurdo para obter o excessivo.

A prefeitura faz que se coloca como anteparo para, afinal, ceder num jogo de pressão e contrapressão a cujo enredo a opinião pública não consegue ter pleno acesso. Mas sobre cujo resumo sabe o bastante para que campanhas de descrédito e suspeita, como a patrocinada pelos veículos de comunicação do senador Jader Barbalho, medrem em terreno fertilíssimo.

Ainda que fosse absolutamente séria, transparente e competente, a administração municipal pouco poderia fazer para enquadrar as empresas de ônibus e impor-lhes uma política capaz de estabelecer um equilíbrio entre as necessidades do capital e as possibilidades do trabalho. Mesmo as premissas da análise sobre a procedência dos pedidos de aumento estão viciadas.

Uma passagem de ônibus atual traz embutido um acréscimo que resultou nos 70 centavos, por conta da futura instalação de catracas eletrônicas, que os empresários não fizeram e a prefeitura não foi capaz de cobrar. E agora ela não dispõe de uma estrutura paralela à qual recorrer para enfrentar os empresários, caso a tensão do contencioso tivesse que ser levada ao limite do rompimento. Ainda oferece esse triste e anacrônico espetáculo de sofrimento no credenciamento e obtenção da meia passagem, de cujas folgas institucionais se aproveitam os que não querem um sistema sadio.

Em matéria de transporte coletivo, a cidade marcou passo ou involuiu, relativamente ao agravamento das necessidades públicas. É o saldo mais negativo de um governo impetuoso na retórica, mas não nas consequências dos seus atos.

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