Quinta, 17 Maio 2018 09:56

Prova da bandidagem

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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A Odebrecht merece um estudo de caso internacional. Num setor cartelizado nacionalmente, pelo menos desde o governo de Juscelino Kubitschek, na metade da década de 1950, com competição de cartas marcadas e muita corrupção, a empreiteira baiana inovou ao criar o Departamento de Operações Estruturadas, a corrupção levada ao paroxismo da profissionalização, uma contabilidade paralela escriturada com tanto formalismo e rigor quanto as contas oficiais.

Esse estudo de caso deveria levar à avaliação do jogo paralelo que a empresa travava, simultaneamente, no mundo da engenharia de obras e na engenharia da sujeira. A Odebrecht chegaria à grandeza que atingiu ao longo dos 14 anos de PT no governo federal sem comprar aliados para fraudar licitações e contratos? Quanto do seu orçamento econômico-financeiro foi gasto com corrupção e quanto do seu tempo e meios foi desviado para comprar pessoas?

O caso do sítio de Atibaia, analisado tecnicamente, política e ideologia à parte, ajuda a entender essa monstruosa criatura, o tal Departamento de Operações Estruturadas, um setor que deveria ser invisível no organograma da corporação (e era), mas atuava como se construísse hidrelétricas, estradas ou qualquer outra obra de engenharia.

O sítio estava – e ainda está – em nome da família Bittar, ilustre desconhecida, um resíduo microscópico na estrutura de poder no Brasil. Apesar disso, a Odebrecht, em parceria com a OAS (cuja origem remonta a ninguém menos PT – em tese – do que Antônio Carlos Magalhães, o diferencial em favor das Obras Arranjadas pelo Sogro – no caso, para o marido da filha do poderoso cacique baiano), aplicou 700 mil reais em reformas no sítio.

Evidentemente, depois dessa intervenção, o sítio subiu bastante de status, mas seria investimento desinteressado das duas empreiteiras. Como elas sabiam que a família Bittar cedia a propriedade para o descanso da família Lula da Silva, os cuidados visavam melhorar a – constante – permanência do ex-presidente no local, de outra forma simples demais para o acolher.

Mas por que o dinheiro usado na reforma não veio do caixa regular das companhias? No caso da Odebrecht, a origem era uma conta única, alimentada por dinheiro ilícito, resultante de superfaturamento e outros desvios de recursos em obras públicas, que permitem com muito mais facilidade a alquimia dos números em favor dos contratados particulares.

Com vários dutos de drenagem pelo caixa 2, esse dinheiro, ao entrar no fundo, era batido como num liquidificador, para apagar rastros de chegada e de saída. Um esquema tipicamente mafioso atualizado pela tecnologia de hoje.

Ainda bem que o ser humano tem um componente de humanidade (com perdão da tautologia) que tisna de imperfeição todos os seus atos, mesmo os pretensamente perfeitos. Por um desses mistérios que já deveria ter sido eliminado, Marcelo Odebrecht talvez tenha desejado passar à história como o dono dos principais potentados do Brasil do seu tempo.

Por isso, mandou escriturar as operações desse mundo subterrâneo como se essas movimentação não constituíssem crimes, como se, mesmo sendo delitos, eles tivessem que ser perdoados em homenagem à inteligência e audácia do senhor do Brasil.

Felizmente, o aparato estatal, principalmente na justiça, no MPF, na Polícia Federal, na Receita Federal e no TCU já conta com pessoal especializado competente. Essa circunstância nos permite, ao ler o relatório da perícia que a PF apresentou ontem, respondendo a quesitos que lhe foram formulados pelo juiz Sérgio Moro e pela defesa de Lula, perceber que, desta vez, os bandidos – que é o seu verdadeiro nome – poderão não sair impunes – talvez.

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