Quinta, 24 Maio 2018 10:35

Apertem o cinto

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Mesmo quando já é bastante ruim, a conjuntura ainda pode piorar bastante no Brasil. É o caso da situação atual. O país já vem se enredando, há mais de quatro anos, nas teias do mundo simbólico, com o combate à corrupção, que ultrapassou – em muito – a antiga redução do seu significado a um moralismo udenista farisaico. Na escala que atingiu, a corrupção deixou de ser resíduo na equação da viabilidade econômica. Tornou-se um obstáculo real e grave ao progresso do país.

Agora a crise de agrava no mundo real com a greve dos caminhoneiros, que completou o quarto dia de duração. A dimensão continental do país e a má opção que fez pelo transporte rodoviário exigiriam do governo – e também da sociedade – uma antecipação ao desfecho, preparado há pelo menos dois meses.

Vendendo o almoço para comprar o jantar, o governo empurrou com a barriga, confiando no seu talento para driblar os desafios que dependem de vontade política, engenhosidade e cinismo. Talento que não se estende aos atos da vivência diária, porque a crise fiscal, que se torna agônica em período eleitoral, o sufoca e trava os seus movimentos.

Um dos acertos da atual gestão foi acabar com o populismo econômico da era Dilma, versão ampliada e agravada do governo Lula. que tornou insuportável a sua perduração. Na Petrobrás, a nova diretriz envolve um risco, na melhor das hipóteses, de centenas de milhões de reais em qualquer decisão. Com um pouco mais de marola, a conta passa do bilhão. Logo, ao encerramento de cada dia impunha-se planejar de novo uma semana ou mais, testando cenários e fazendo prognósticos.

Só quando a greve estourou, na segunda-feira, é que a ficha parece ter caído. O movimento não iria se desfazer facilmente. A corda estourara, a paciência se fora, o emocional passou a pesar tanto quanto o racional, a revolta acumulada mais do que o vazio no bolso, aplicando 70% da renda no combustível e no pedágio. O preço do retorno à normalidade será alto, muito maior do que seria com a antecipação da negociação por um acordo.

O governo está muito mais certo do que errado na atual política de preços dos combustíveis. Esquematicamente, o termômetro do valor sobe ou desce conforme o preço do barril do petróleo no mercado internacional e a flutuação do dólar. O reajuste tem sido automático porque o governo não dispõe do devido recurso em caixa, com a rubrica legal, para bancar o prejuízo, por mais que ele seja de curta duração.

Numa aritmética simples, que é meio eficaz de análise e ação apenas no plano emocional (e político), o crítico dessa diretriz argumentará que basta não pagar os juros da dívida ou reduzir o custo do dinheiro (que enriquece os banqueiros) para que surja um excedente. É verdade: seria amortecido o impacto dos aumentos sistemáticos, que têm o efeito de uma inflação galopante (como um falso sinal de febre no organismo). O cidadão teria a impressão de que está tudo bem.

O problema já não é apenas o do rompimento de pactos internacionais tácitos ou mesmo contratos com a força de lei, que acarretam indenizações. Pesa ainda mais neste momento a conjuntura internacional, abalada e ameaçada por um cidadão que comanda o maior tesouro de riquezas e o maior arsenal de armas terríveis do planeta como se manipulasse um mouse de computador ou um toque digital em um celular.

Se, para a União Europeia, Donald Trump é uma fonte de incertezas e sobressaltos, imagine-se o que representa para países que ele sequer conhece nem imagina que existam. A cautela tem que ser absoluta. A lucidez, seminal. Evidentemente, o campo de manobra do Brasil é mínimo. A onda é grande demais para que o país surfe satisfatoriamente nela.

Nesse terreno erodido, todos se sentem inseguros. O medo levou a Câmara dos Deputados a abandonar o mínimo de apego aos compromissos e raspar os tributos sobre os combustíveis, rompendo unilateralmente o acordo acertado com o governo.

Claro: os deputados não querem comprometer os seus arsenais de votos, a cinco meses da eleição. O governo que se vire. Afinal, Temer é o presidente mais impopular da história da república e definha a cada novo amanhecer. E ele não será candidato em outubro. Pode cometer atos de insanidade à vontade. O problema ficará para o seu sucessor.

O afogado que não sabe nadar ou que enfrenta ondas insuperáveis, monta no nadador mais próximo e o afoga, se preciso for. As medidas de última hora, sucessivamente apresentadas desde ontem, são iniciativas de afogado, não de um governo que parecia estar conduzindo a sua maior empresa, a Petrobrás, a mais estratégica de todas, para uma praia segura – talvez sem ter consciência do ônus que isso acarreta, da dimensão que impõe ao seu condutor, de ter uma visão de estadistas, que Temer, evidentemente, não tem. Se tivesse, não teria deixado para a undécima hora a busca pelo cinto de mil utilidades, que o Batman carrega. Só que ele não é o tal.

Nesta manhã incerta, o horizonte parece saudar o nefando retorno do populismo, dos preços administrados pelo governo, um governo que se afoga e arrasta consigo a nação. A síndrome lulo-dilmista está de volta. Apertem o cinto: o piloto sumiu. O Brasil entra de novo em mais um CB (o Cumulus Nimbus), a nuvem da tempestade.

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