Sexta, 25 Maio 2018 10:41

Um projeto ameaçado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Qualquer pessoa dotada de um mínimo de discernimento e boa vontade, que acompanha a greve dos caminhoneiros, deve chegar a uma conclusão desolada e angustiante sobre o seu desenrolar até agora e possível desfecho. Como é frágil o Brasil, um país com mais de 200 milhões de habitantes, distribuídos em um território de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, detentor da oitava maior economia do mundo.

Uma única categoria profissional, que tem 2 milhões de integrantes, submete à sua vontade outros 154 milhões de cidadãos economicamente ativos. São menos de 1,5% de trabalhadores que podem fazer o que quiserem, como ainda estão fazendo. Podem estar com as mais justas razões para se revoltar e as mais legítimas reivindicações a defender, mas para eles – e para qualquer um – há um limite de ação, até que, violando as regras de convivência social, eles se chocam com o interesse público. Esse limite foi violado e demorou demais a ser combatido.

Impõe-se à nação, uma vez resolvida essa emergência, enfrentar os desafios que a atual sensação de vulnerabilidade, impotência e confusão dissemina por todo país. A espinha dorsal do transporte é formada pelas estradas de rodagem, pelas quais circulam milhares de veículos todos os dias. Fatos absurdos ou surreais se acumulam nessa estrutura anômala, que se impõe a tímidas alternativas ferroviárias e hidroviárias. Mas pouco se tem feito para resolvê-los. O governo vive como um parasita fiscal desse sistema oligopolista. Impôs tantos impostos e taxas sobre a atividade que nem mesmo sabe a quanto ela monta.

Aliás, o Brasil sabe muito pouco sobre um setor com tal importância. A grave suspeita de que a paralisação constitui um locaute de patrões não tem uma base de sustentação à altura dessa gravidade. Academias e instituições técnicas são grandes omissos nesta situação, incapazes de lançar luzes sobre a realidade desse segmento com base em levantamentos científicos. Prevalece um buraco negro.

Infelizmente, uma conjunção de fatores, que começa pela imprevidência do governo, surpreendido pela amplitude do movimento dos caminhoneiros, vai influir sobre a eleição de outubro, sujeita a surpresas por conta do crescimento do componente emocional e passional da disputa pelo voto. É um complicador para uma saída política saudável.

Por isso, a nação, com a liderança do governo ou sem ela, a despeito dela se for o caso, precisa tomar os acontecimentos desta crise como elementos para formular o que parece que jamais se materializará no Brasil: um projeto verdadeiro de civilização. Pois o que se está vendo é a predominância da barbárie e da irracionalidade.

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