Terça, 29 Maio 2018 10:50

O gigante atropelado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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No seu 9º dia, a greve dos caminhoneiros se tornou inaceitável, intolerável. Embora tenha começado a ser desfeita, a volta atrás é mais lenta do que seria compreensível. Alguns caminhoneiros explicaram que a desmobilização é assim mesmo: requer etapas. Além disso, muitos dos grevistas ainda se sentiriam inseguros para voltar ao trabalho. Há também os que consideram insuficientes as concessões feitas pelo governo. Querem mais. E há os que se mantêm na atitude de combate por objetivos políticos.

Segundo estudo feito pela Universidade de São Paulo, 58% dos motoristas de caminhão (ou 1,3 milhão deles) são contratados por empresas de transporte rodoviário de carga. Logo, sua adesão à greve teria que ser por melhoria salarial ou das condições de trabalho.

Não há nenhum item trabalhista na pauta de reivindicações dos grevistas. São todas elas plataformas de cunho empresarial, coerentes com 28% do universo (menos de 500 mil indivíduos num total de 2,2 milhões de profissionais do setor) e de alguma maneira também relacionadas aos 14% restantes, que atuam com base em outras formas de relações contratuais.

Os representantes dos motoristas autônomos, que têm pequenas ou, no máximo, médias empresas, aceitaram o acordo com o governo e pediram o fim da paralisação. Os outros contratados seguiram nesse caminho. Deduz-se, assim, que os recalcitrantes são, principalmente (ou na esmagadora maioria), empregados das empresas de transporte.

Assim, a hipótese mais provável para explicar a consistência e a força dessa greve é o locaute. Por trás dos personagens que aparecem à frente do movimento, estariam empresários, o que explicaria o “esquecimento”, até ontem, de qualquer objetivo laboral na pauta das exigências, a exclusão da gasolina e do etanol da companhia do óleo diesel em busca pelo menor preço (só agora incluídas), os benefícios requeridos apenas para a estrutura de custos operacionais e objetivos menos explícitos.

Ontem, líderes que se apresentaram aos repórteres foram incisivos no discurso por uma pauta mínima de preços para os fretes (a maneira de remunerar melhor quem cumpre viagens curtas) e definiram não mais um percentual ou um valor de subsídio, mas um preço mínimo do litro, que, no julgamento deles,s em qualquer memória de cálculo, o Brasil teria condições de suportar.

Os dirigentes das instituições dos profissionais autônomos acusaram os líderes da resistência ao acordo de se terem tornado em instrumentos a serviço de políticos demagogos, oportunistas e agentes interessados em derrubar o governo – se não diretamente, através da aposta no agravamento da crise, que está raspando o que resta de credibilidade, autoridade e legitimidade no fundo do tacho do governo Temer. Defendem um golpe de Estado já, através do envolvimento das forças armadas num confronto, ou daqui a pouco, com a eleição de Jair Bolsonaro.

Tive minha experiência com o que provavelmente foi o maior locaute (expressão derivada do inglês e não do grego, como afirmou um confiante repórter de TV) da história da América do Sul. Foi no Chile, onde o transporte rodoviário de cargas pesava ainda mais na economia do país do que no Brasil ainda hoje. Como eu estava ligado a um programa de intercâmbio jornalístico (que começou e terminou comigo) entre O Estado de S. Paulo e El Mercúrio, jornal da aristocracia que era uma das frentes de conspiração, pude conversar com vários empresários.

Por me receberem como se fora um deles, me contaram como era o esquema de apoio à greve dos caminhoneiros para a derrubada do presidente Salvador Allende. A paralisação foi de tal magnitude, em toda a imensa extensão do território chileno, que logo as mulheres aderiram, passando o dia inteiro a fazer manifestações nas ruas, incluindo o panelaço. O mesmo panelaço que no domingo à noite foi o ruído em contracanto ao anunciado acordo entre o governo e os caminhoneiros.

A classe média (de média a alta) gritava o “fora Temer”, que parecia monopólio do PT depois da “traição”. O slogan mudou de dono? Passou a ser o novo grito de guerra (literalmente) dos adeptos de Jair Bolsonaro, mesmo que venha a ser utilizado ainda pelos petistas e acabe se voltando contra eles pelo prolongamento do quadro de sofrimento do Brasil.

A nação já não se consegue mais tolerar o abuso dos caminhoneiros (marionetes dos seus patrões?), vendo a morte de animais, a perda de produtos perecíveis, a desarticulação da produção, o surrealismo violento pelas ruas das grandes cidades – e o risco de morte de pacientes nos hospitais e pontos facultativos nas já combalidas escolas públicas. Sem falar na sangria financeira da Petrobrás.

A greve dos petroleiros pode ser a gota d’água – ou o derrame de combustível na tina do desperdícios e leviandades. Das cinco reivindicações, duas são claramente políticas (e petistas?): a demissão do presidente da estatal, Pedro Parente, e a reversão das privatizações no âmbito da empresa. Estas, como também as demais, poderiam continuar a ser manejadas através de um jogo de pressões. Ainda mais neste momento delicado.

Pode acontecer de querendo dar um peteleco em Temer para que ele desabe, acabe atropelando o gigante adormecido.

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