Domingo, 01 Abril 2018 11:00

Acredite: isto é Brasil!

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Dez amigos íntimos ou ex-assessores do presidente Michel Temer, além de empresários suspeitos de participar de um esquema de corrupção no porto de Santos, foram presos no dia 29´(outros três estavam viajando pelo exterior; ainda não voltaram). O prazo de validade da prisão temporária era de cinco dias. Bastaram três dias, no entanto, para que os policiais e membros do Ministério Público Federal se satisfazerem com os interrogatórios. Já tinham as informações que buscavam?

Aparentemente, sim. Num raro gesto de fidalguia ou pragmatismo para os padrões da caça aos corruptos, a procuradora geral da república Raquel Dodge pediu e o justiceiro ministro Luiz Roberto Barroso a atendeu, de imediato, sem qualquer pitada de psicopatia. Deu ordem de soltura para que os até então presos possam comemorar em suas luxuosas residências seus sofisticados ovos de páscoa.

Um detalhe tisnou esse nobre enredo previamente concertado (ou seria consertado?): o coronel Lima (será codinome?) sequer foi ouvido. O coronel, tido por sócio informal do presidente numa camuflada agência de distribuição de dinheiro de origem incerta e não sabido para destinos conhecidos e esquecidos, sequer foi ouvido. Sua figura é singular: ele é o mais falado dos personagens criminais desta novela. Mas é o único que nunca falou. Por três vezes não compareceu a audiências marcadas para interrogá-lo na justiça porque estaria doente e “sem condições psicológicas” para falar (quem está em condições psicológicas de ir à justiça como réu ou sofrer ameaça de ser preso? Quem estiver, levante as mãos).

O vulto bem posto de imagens anteriores veiculadas pela imprensa foi substituído, ao descer preso do seu luxuoso apartamento em São Paulo, por um ser abatido, quase moribundo, como um novo Duciomar Costa, que trafegou em cadeira de rodas da residência para uma ambulância e, nela, para um caro hospital particular. Cadeira de rodas parece ter se tornado o must da atual fase de caça aos corruptos, deixando em segundo plano a coqueluche de antes, as esbeltas tornozeleiras eletrônicas.

Se a razão do pedido de soltura e da sua concessão de bate-pronto pelo ministro campeão da consciência de justiça no STF foi que os presos já haviam dito tudo que podiam dizer, como estender a ordem de libertação estendida ao coronel da reserva da Polícia Militar, que nada disse nem lhe pôde ser perguntado?

Ao que parece, o rolo do filme da Lava-Jato está sendo rebobinado para ser substituído por uma nova fita (em seu significado simbólico popular, de “fazer fita”). Maluf, também em cadeira de rodas, já está em sua luxuosa mansão no Jardim América, em São Paulo.  O deputado estadual Jorge Piciani, da máfia carioca, que está destruindo a Cidade Maravilhosa, foi solto. Demóstenes Torres vai poder se candidatar outra vez. Liberalidades praticadas, por mero “humanitarismo”, em canetadas seguidas, pelo ministro Dias Toffoli, que será o próximo presidente da mais alta cote da justiça brasileira, em substituição à dubidativa Cármen Lúcia, bloqueada por uma pedra no caminho de Minas. Toffoli, advogado particular de Lula antes de ser indicado plo PT para o excelso pretório, levou bomba em dois concursos para juiz de 1º grau.

Como diria o bardo prêmio Nobel de literatura Bob Dylan, “the times, they are a changing”. Melhor manter o inglês para não baixar ainda mais o astral. Afinal, como logo veremos, as robustas provas produzidas nos três dias de interrogatório irão desmascarar a rede de corrupção no porto de Santos, farão todos os seus integrantes voltar à prisão, levarão à terceira e definitiva denúncia contra Temer no Congresso e descerão mais alguns degraus no lodaçal que cobre este gigante pela própria natureza, impedindo-o de acreditar que o que brilha lá em cima é o sol, não a espada de Dâmocles.

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