Quarta, 04 Abril 2018 12:27

Como antes

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
Avalie este item
(0 votos)

Ricardo Lewandowski e eu fomos colegas no bacharelado em sociologia e política em São Paulo, na transição de 1969 para 1970. Conversávamos muito, embora eu fosse considerado de esquerda e ele de direita. Havia uma relação de sincera afetuosidade entre nós. Mas tanto eu via os defeitos dele quanto ele os meus.

Faço referência a esse passado já tão distante porque, acompanhando integralmente o voto que acaba de proferir, fiquei com a forte sensação de volta ao passado. Ricardo agora não quer que o Brasil volte a um regime de exceção. Quando vivíamos num, que durou de 1964 a 1985, ele nada disse contra. Muito menos fez qualquer coisa para combatê-lo, como eu e outros colegas da faculdade fazíamos.

Ricardo critica agora o país desigual e injusto, destaca acima de tudo a liberdade do indivíduo, bem mais nobre, por ele utilizado, de forma postiça e incongruente com a sua trajetória, para assegurar que o ex-presidente Lula não será impedido de exercer o direito de ir e vir.

Na nossa época de estudantes universitários, ele não tinha essa sensibilidade. Era conservador e elitista, presunçoso ao exibir uma inteligência e um conhecimento que considerava capaz de credenciá-lo a estar acima dos demais, desdenhando de divergentes e opositores.

Tinha realmente uma boa retórica, era inteligente na armação de argumentos, mas superficial, retórico e de um saber formalista, sem consistência nem profundidade.

Exatamente como foi agora, ao apresentar seu voto, que se tornou supérfluo e perdeu significância depois da brilhante aula dada pelo ministro Luís Roberto Barroso. Barroso cumpriu fielmente o plano da obra que anunciou que iria seguir antes de começar a sustentação das suas teses.

Argumentou com conhecimento jurídico, contextualizando a sustentação, fundamentando-a em fatos concretos e desta vez usando pitadas não de psicopatia, como atribuiu ao seu inimigo Gilmar Mendes, num momento de destempero, descontrole e queda livre, ou ele próprio em 1º de abril, data assaz apropriada para a soltura dos amigos de Temer, mas daquele pragmatismo que Dewey sedimentou numa base sólida de realizações.

Um momento do melhor direito num mínimo supremo.

Ler 57 vezes

Comments fornecido por CComment