Quinta, 05 Abril 2018 16:27

O eco armado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Na noite de terça-feira, 3, véspera do julgamento de Lula, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, postou duas notas das redes sociais.

Na primeira postagem, o general escreveu: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”.

Na segunda postagem, afirmou: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”

Segundo a Folha de S. Paulo, 45 minutos depois das postagens, os comentários foram curtidos 4,5 mil vezes. O comandante do Exército tem 118 mil seguidores no Twitter. As afirmações do general surgem em um momento de tensão social e política, com protestos ocorridos ou marcados em várias partes do país contra e a favor de Lula.

Uma das primeiras reações foi a do general Antonio Miotto, comandante militar da Amazônia até o mês passado. Ele disse: “Comandante! Estamos juntos na mesma trincheira! Pensamos da mesma forma! Brasil acima de tudo! Aço!”.

O juiz federal Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio de Janeiro, reproduziu o comentário adicionando-lhe um ícone usado em trocas de mensagens como sinal gráfico de aplauso.

Horas depois,  o juiz voltou ao Twitter para reafirmar seu “respeito pelo Exército Brasileiro e pelas demais FFAA [Forças Armadas]” e reiterar: “Compartilho dos valores enunciados na mensagem referida (repúdio à impunidade, respeito à Constituição, à paz social e à Democracia)”. Logo em seguida vem o adendo: “Contudo, não me pronuncio sobre as insinuações que dela derivaram”.

Villas Bôas, de 66 anos, é general desde 2011. Quatro anos depois, assumiu o comando do Exército. É portador “de uma doença degenerativa grave, com perda de mobilidade. Já é visto em cadeira de rodas e também tem problemas respiratórios. O militar não diz o nome da enfermidade”, informa a Folha.

O impacto das declarações começou quando William Bonner prolongou o encerramento da edição do Jornal Nacional para incluir, com voz cavernosa, as afirmativas do general. Milhares de telespectadores devem ter sentido um frio na espinha ao lhes vir à memória os pronunciamentos militares (pronunciamientos do lado hispânico do continente) em passado mais remoto ou mais recente da vida republicana nacional.

O general estaria dando partida a um novo golpe militar no Brasil ou sua iniciativa era para pressionar o Supremo Tribunal Federal a cassar Lula no dia seguinte, colocando sobre as cabeças dos ministros a espada do Exército?

O ministro Celso de Mello entendeu assim e deu uma resposta, mais enérgica do que a da presidente da corte, Cármen Lúcia. Mas o decano respondeu sem se referir ao general e às suas palavras. Falou em tese, alertando contra a interferência castrense no poder, que, para ser democrático, tem que ser civil.

Talvez pela necessidade (ou ânsia) de não deixar passar em branco a ofensa, o ministro respondeu ao general na abertura do seu voto, que foi contrário à prisão de Lula (incidindo no abrigo à impunidade criticado pelo general?). A iniciativa teve seu lado negativo. Da mesma maneira como as declarações do general podiam ser entendidas como um abusivo recado e ameaça ao STF, a inclusão de um corpo estranho no voto de Celso de Mello podia ser interpretada como uma tentativa de politizar a tese em favor de Lula, dando-lhe certa feição heróica contra um panio de fundo de corrupção.

O Ministério Público Federal também reagiu logo. Ontem, cobrou do ministro da Defesa, um civil, que exija explicações do seu subordinado. O texto do general Villas Bôas foi escrito com tal cuidado que certamente ele não se exporá ao risco de qualquer sanção ao responder, se for intimado.

Se ele quis colocar na rua e lançar a senha para um golpe militar, estará cometendo uma insensatez. Mas nada nas suas postagens indica que esse foi o seu objetivo. Se foi, ele fracassará. A deposição de um presidente constitucional por um golpe custará imediatamente ao Brasil bilhões e bilhões de dólares quando as agências de risco baixarem a sua nota, o que farão de imediato.

Além disso, o que fará um ditador num país de tal complexidade no dia seguinte? Quem classifica o impeachment de Dilma em 2016 como golpe, na verdade, não sabe do que está falando. Ou sabe – e mente.

Pode ser que o general tenha ousado tanto (ou mais) para responder à tropa, seu público interno, do que visar o STF especificamente no caso Lula. A inquietação nos quartéis é visível e dela sabemos pouco porque a imprensa relaxou a cobertura dos militares. Faltam informações elementares sobre a situação das forças armadas, obtidas diretamente e não com base em análises abstratas e dados secundários. Mas uma coisa é certa: os militares são a classe média armada.

Além de se interessarem pelas candentes questões conjunturais, eles não estão imunes aos efeitos da crise. Certamente a alta oficialidade já se convenceu de que o presidente da república lançou o Exército numa aventura perigosa nos morros do Rio de Janeiro.

A credibilidade da instituição junto à sociedade pode ser arranhada ou comprometida pelo evidente insucesso com o qual está se havendo. Os militares entraram como salvadores no teatro de operações e agora se encontram quase como a população: perdidos no meio do tiroteio de uma guerra civil que já não é nem mesmo disfarçada. As mortes prosseguem exatamente como antes, ou pior.

Tudo que o general escreveu, boa parte do povo brasileiro subscreveria. Só há motivo para mais preocupação e sobressalto porque o comandante do Exército quebrou o silêncio que até então se impusera. É mais um sinal no torvelinho da crise. Exige atenção. E atos concretos, que desfaçam as preocupações e críticas das quais o general se tornou o arauto armado.

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