Sábado, 07 Abril 2018 16:58

O dono da bola

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Lula parecia imaginar que a batalha judicial da qual se tornou o personagem principal seria travada como numa pelada de futebol. Sendo o político mais popular do Brasil, capaz de arrastar multidões sob o seu comando, o guia dos povos, era o dono do campo, da bola e das camisas. Se a partida se encaminhasse para a sua derrota, ele poderia interditar o campo aos demais jogadores, pegaria de volta a bola e as camisas e iria embora. Não haveria mais jogo.

A defesa do ex-presidente fez tudo e mais um pouco que os melhores advogados do país fariam para provar que a denúncia contra Lula era inepta, não havia provas das acusações, tratava-se de um processo político, o Ministério Público Federal (sem falar na Polícia Federal e outros agentes de investigação) era parcial, o juiz da causa não era isento.

Tudo somado, o resultado era uma farsa grosseira, armada só para impedir a volta do PT ao poder, após uma interrupção de dois anos, graças a um golpe, a um domínio de 16 anos na presidência da república, algo inédito na história republicana, “como nunca antes neste país”.

Os órgãos colegiados da justiça brasileira não concordaram com a tese. Deliberaram, na esmagadora maioria das vezes à unanimidade (em placares como 5 a 0 ou 3 a 0), que o conjunto probatório contra Lula se sustentava, o julgamento singular de Moro fora correto e a sentença até leve demais, por isso acabando por ampliada por três desembargadores do de um dos cinco tribunais federais regionais do Brasil. No mesmos sentido se pronunciaram os ministros do Superior Tribunal de Justiça. Mais apertada foi a votação no Supremo Tribunal Federal, o mais político de todos.

Completado o percurso, o resultado era adverso ao ex-presidente. Como menino pimbudo de pelada de futebol praticada em seus domínios, ele se recusou a se submeter ao veredito da justiça. E se recolheu ao ponto de origem da sua carreira, no sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista, que passou a ser a república lulista, como se fora o Vaticano em Roma (ou, em outro contexto, a república do Galeão montada pela Aeronáutica, em 1954, contra Getúlio Vargas).

Com sua megalomania, que mal conseguiu disfarçar ao longo da sua impressionante trajetória, constantemente se concedendo títulos inéditos e grandiosos, demarcando a história do Brasil (ainda não a do mundo) a um A. L. e D. L., para substituir o tradicional referencial do A. C. e D. C., como se Lula fosse Cristo, Lula zomba do Brasil, deprecia o Brasil, se projeta maior do que o Brasil. Podia tomar como música incidental da sua rompância a marchinha carnavalesca “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Esperemos que a sequência legal e democrática que havia até o dono da bola empastelar com a partida se restabeleça e o Brasil saia deste tropeço em meio a uma imensa crítica ainda grande, maior – pelo menos, do que a Venezuela, que talvez Lula quisesse que fosse aqui.

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