Sábado, 07 Abril 2018 16:59

Fé na ficção

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Bispos e religiosos da igreja católica (e de outros credos, secundariamente) ocupam neste momento o palanque montado pelo PT à entrada da sede do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista. O pretexto inicial foi a celebração de um ato ecumênico com duplo sentido: comemorar o aniversário da esposa de Lula e lembrar a sua memória, maltratada pós-morte pelo marido, pouco mais de um ano depois da sua morte.

Em meio a vestes cerimoniais dos eclesiásticos e uma e outra reza, o discurso é político, o mesmo dos petistas e “apoiadores (por que não dizer militantes, cultivadores ou simpatizantes do culto à personalidade do ex-presidente, o guia dos povos, quase como o título que Stálin também cultivou?).

Para esses religiosos, provavelmente, Lula ainda é o heroico líder sindical, o homem de fé, o esposo dedicado e pai exemplar (títulos que se relativizaram bastante), o resistente e combatente da ditadura. E, acima de tudo, o fundador do partido que, com a colaboração invisível – mas muito forte – do general Golbery do Couto e Silva (estrategista da distensão “lenta, segura e gradual” da ditadura à democracia consentida e tutelada), iria levar a classe operária ao paraíso.

Para esses religiosos, o mundo é maniqueísta. De um lado os bons, do outro os maus. Os puros e os corrompidos. Os conversadores e os “progressistas”. Os explorados e os exploradores. Os salvados e os condenados.

Frei Beto partilhava essa visão milenarista, salvacionista, mecanicista, dogmática e reducionista da vida e do mundo, tudo nele compreendido. Por isso, com outros frades dominicanos, se uniu à luta armada contra a ditadura de Marighela. Mas não aguentaram o tranco e sucumbiram – mortalmente, como frei Tito. ou pulando fora, como Beto.

Com Lula, ele embarcou em nova utopia, com os mesmos ímpetos de congelamento da complexidade individual e social na dogmática cristã. Mas pulou fora do barco e dele forneceu um relato precioso com seu livro A mosca azul (boicotado, ao reverso da “narrativa” – conforme o novo jargão – sobre a paradisíaca Cuba de Fidel & Raul),

Beto era, dentre os muitos religiosos petistas, o mais ´próximo e íntimo de Lula. Frei Beto não está no palanque, onde Lula fala, agora, como o sumo pontífice dos companheiros de espiritualidade, que cobre de elogios condescendentes.

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