Sábado, 07 Abril 2018 17:00

O guia errado

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Num discurso de 55 minutos, Lula anunciou que vai se entregar a um delegado da Polícia Federal, que o prenderá, em cumprimento a uma ordem judicial – mesmo ultrapassando em quase 24 horas o encerramento do prazo para a entrega voluntária, que o impedirá de ser preso por iniciativa daquele que considera seu algoz.

O prazo adicional foi necessário para que ele e sua engrenagem de poder paralelo pudessem preparar o ato que acaba de executar, dando a volta por cima, na intenção de sair mais forte da prisão do que nela vai entrar, daqui a pouco.

Lula é um grande político, um homem imensamente esperto, alguém que aprende com facilidade fora do normal, sem precisar ir a uma aula ou ler um livro. Além de contar com uma estrela excepcional e ter um carisma raro, ele tem empatia natural com o povo – e é audacioso.

Deve realmente acreditar que logo estará fora da cadeia, utilizando-a como capital adicional com o qual retornará, pela terceira vez, à presidência da república, como aconteceu com Mandela na África do Sul, com uma diferença – décadas se passaram até que Mandela revirasse o apartheid de ponta-cabeça, colocando-se acima dele (embora, hoje, o processo tenha resultado no comando do político que talvez seja um dos mais corruptos do mundo).

A resposta de Lula é a elite brasileira, daninha e merecedora de todas as suas críticas, mas que ele tanto ajudou, apesar de todo discurso que fez contra ela, mesmo quando usa uma retórica engrandecedora (como a de ter colocado pobres e negros na universidade. com financiamento estatal a empresas privadas do negócio educacional, à custa do investimento nas universidades públicas).

Depois de um discurso radical e, por vezes, tão furioso que arrancou palavrões da sua boca, como ao gritar que fará a regulação (eufemismo de censura e controle estatal) das comunicações para punir toda imprensa, que se uniu aos seus inimigos com o propósito de destruí-lo (o que qualquer um poderá constatar ao menos uma variação entre as empresas jornalísticas). Será a hora da vingança, se ele voltar ao poder. Ou de novo acerto, como fez depois do discurso radical anterior, mas nos bastidores, à sombra, longe dos olhos públicos.

Lula arrematou essa arenga, ao final, puxando para si personagens ainda mais radicais, que tiveram sua bênção, embora não sejam do seu partido, na verdade estão à esquerda do PT: Manuela e Boulos, Ao se declarar recompensado por ver sua geração ser substituída por uma mais nova, na verdade ele estava tentando fazer medo para as elites e afastar a saída alternativa do PT. Por isso, não deu esse destaque a Haddad ou Wagner, do tal plano B. A prioridade é mesmo Lula, primeiro e único.

A imitação de Martin Luther King se tornou escrachada com o discurso (ou “narrativa”) do sonho, uma das mais belas rações políticas da história na boca do líder do movimento negro americano. Lula enumerou sonhos de realização, como se constituíssem uma política consistente e sólida, para arrematar com sua metáfora do renascimento de Lula em cada um dos seus defensores e seguidores. Lula virou uma ideia”, proclamou, o que não é verdade. Lula é pragmatismo, esperteza, audácia e fome de poder, tudo isso servido por uma argúcia excepcional.

Luiz Inácio da Silva não acabou. Sua volta não deve ser lamentada por contrariar o apetite fanático dos que o querem morto em função dos acertos que ele teve, muito mais do que dos seus erros, e que também nada têm a oferecer. Mas porque, em meio a tantas qualidades, Lula é ma disfarçada vocação de ditador, em versão muito melhor do que a de modelos mais toscos.

Sintomaticamente, quando se glorificou por não ter atravessado a fronteira do Brasil com o Uruguai para escapar à iminente prisão, como lhe foi sugerido, disse que poderia se exilar também na Bolívia e em outros países. Omitiu a Venezuela, muito mais próximo das suas ideias, do seu programa, da sua prática, do seu sonho.

É que uma parte importante, valiosa e boa da Venezuela hoje está no Brasil, advertindo os brasileiros, com sua sofrida presença física, a não seguirem mais esse guia dos povos. Contradição ambulante, ele transformará suas palavras em farelo e fará sempre aquilo que é melhor para uma única pessoa: ele mesmo.

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