Domingo, 08 Abril 2018 17:11

O dito curso do dito golpe

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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Começou nesta última sexta-feira um curso livre sobe o “golpe de 2016” na Universidade Federal do Pará. É promovido por sete institutos e realizado por 55 professores. O que surpreende e desagrada é a marca da pressa, do afogadilho, da falta de substância e coerência. A semelhança com o velho dito popular: “Maria pode casar com qualquer, desde que seja com João”.

A iniciativa tem uma datação comprometedora. Embora provocada  mais de um ano depois do suposto golpe, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, parece mais relacionado ao processo do seu patrono, o ex-presidente Lula.

Mais para oferecer uma base acadêmica em defesa e para sustentar Lula contra os azares do processo judicial a que está submetido do que para formar uma consciência universitária qualificada sobre a conjuntura da crise brasileira. Uma renúncia explícita à metodologia de geração do conhecimento estruturado em bases racionais e científicas em prol de uma atitude política – mais (ou menos) do que isso: uma atitude partidária.Nova chama a inflamar o fogo da intolerância e obtusidade.

A trajetória erradia da ideia atesta essa interpretação. Ela começou com a pretensão de introduzir uma nova disciplina no currículo acadêmico. Com a oposição, embora de raros que se manifestaram abertamente, desceu para disciplina eletiva. Ao se materializar num curso dito livre (mas que evidentemente, não prima pelo acolhimento à pluralidade e diversidade de entendimentos), tornou difusa a sua temática, polvilhando com outros assuntos (e até retocando o título original, que destacava a ação golpista da mídia), o que interessa aos idealizadores da criatura: o “golpe parlamentar”  que levou ao afastamento da pior presidente que o Brasil já teve, principal responsável pela mais grave depressão, que o Brasil ainda enfrenta.

O percurso tortuoso desnuda a tortuosidade da posição dos que deram ao curso o título do “golpe de 2016”. Ele consiste, na verdade, em um curso de doutrinação, de formação de militantes; mais do que defensores, soldados da causa, com os quais talvez se pensa em edificar um front para a batalha em favor do ex-presidente. Pela ótica dos promotores da atividade, Lula não está sendo processado por diversas acusações de corrupção. Nada político então. Para os que estão ao lado dele, porém, tudo não passa de uma conspiração das elites – unas e poderosíssimas – para expurgá-lo de vez do poder no Brasil. O fim do Robin Hood redivivo, do pai dos pobres, do guia dos povos, do homem que se sublimou em ideia antes de ir para a cadeia.

A trama iria do parlamento, inclusive dos “300 picaretas” aos quais Lula se aliou, depois de se privar da sua companhia através da renúncia ao mandato de deputado federal constituinte, aos juízes singulares, cortes de apelação e aos dois tribunais superiores,  o STJ e o STF, com votações unânimes contra ele. O Ministério Público Federal seria um antro de golpistas. E empresários com os quais Lula circulava, durante sua presidência e depois dela, como amigo de infância, o traíram e lhe pespegaram as mais terríveis infâmias. Esse rolo todo tecido pela mente fértil e inteligente do ex-presidente.

Mas tudo bem. Um curso é um curso que é um curso. Por isso, ofereço duas sugestões ao seu deslinde.

A primeira: trabalho de casa aos alunos para, em cima do verbete golpe do Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, caracterizar o processo de impeachment de Dilma como golpe.

A segunda: a fundamentação constitucional para o fato de que, na sessão de 31 de agosto de 2016, Dilma ser cassada, sem perder os direitos políticos.  Foi golpe ou não, promovido pelo presidente da sessão, que era Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Ressalto que são sugestões gratuitas, como gratuitas foram minhas participaçõesa atividades na UFPA, a convite de instituições e professores, como os que subscrevem este curso dito livre sobre o dito golpe.

Ah, quanta falta faz Franz Kafka.

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