Quarta, 11 Abril 2018 17:39

O reitor não foi magnífico

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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No pronunciamento de abertura do curso livre sobre o “golpe de 2016”, na sexta-feira, 6, no centro de convenções da Universidade Federal do Pará, o reitor da instituição, Emmanuel Zagury Tourinho disse que o evento era uma contribuição à história do Brasil, à qual a UFPA “não dá as costas”.

Ao mesmo tempo, era uma forma de reconhecer e agradecer ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela compreensão que teve para com a educação e, em particular, as universidades públicas. Seu maior mérito teria sido o de reconhecer e promover o direito de todos os cidadãos à educação. A prova seria o ingresso de populações marginalizadas (negros, indígenas e quilombolas) na universidade ao longo dos últimos 15anos.

Ao final do seu discurso, o reitor, que assumiu o cargo em 2016 e tem mandato até 2020, desejou “longa vida ao presidente Lula”, sob ovação do público, que não ocupou a integridade dos lugares no auditório, ao menos naquele momento, ao contrário da informação fornecida pelos organizadores do curso.

Nesse momento, me veio automaticamente à memória a famosa saudação feita ao ditador da China, Mao Zedong (ou Tsé-tung, na grafia da época, linguisticamente incorreta): era o “longa vida ao presidente Mao”, o grande timoneiro, o guia dos povos.

Mao foi, sem dúvida, um herói e uma das principais personalidades do século XX. Um ídolo, até que as pesquisas e investigações expusessem o outro lado do mito e revelassem um ditador cruel e um gestor desastroso.

Stálin também foi um herói de todos os povos, até a apresentação do relatório do seu sucessor, Nikita Kruschov, acabar com o culto à sua personalidade. Aspectos qualitativos à parte, que bem o distinguem, Stálin matou mais gente do que Hitler.

O ídolo nazista liderou o maior genocídio da história, que vitimou seis milhões de judeus. Stálin matou ou destruiu outros milhões (talvez até mais), com um detalhe: não só eram russos como ele, mas também as mais brilhantes brilhantes cabeças que então estavam em atividade. A tirania de poucos é um monstro.  Quando liberto, causa desgraças desproporcionais em relação à sua pouca dimensão numérica.

O reitor da UFPA deveria ter sido menos partidário e faccioso. Deveria demonstrar que o curso por ele aberto é uma legítima atividade acadêmica, enquadrada nos rigores metodológicos e na objetividade acadêmica de uma instituição de ensino superior, com sua nobre função de manter acesas as luzes do saber, da inteligência e da pluralidade contra a obscuridade do fanatismo, do dogmatismo e da intolerância.

O curso por ele inaugurado nem é livre nem, a rigor, é um curso, a não ser pela sua verdadeira destinação: doutrinar seus alunos a acreditar que o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república foi um golpe parlamentar, fruto de uma conspiração, que se instalou no país, do judiciário ao parlamento, de gabinetes a países estrangeiros, a partir do momento em que Lula recebeu a faixa presidencial do seu adversário, o tucano (e professor universitário, aposentado por um ato de força do regime militar), numa autêntica festa da democracia, sem dedo em riste e sem repressão policial.

Só um cego, aquele que não quer ver de maneira alguma, pode sustentar esse enredo primário da velha teoria conspirativa. em seu paroxismo máximo. Parece inútil relembrar que Lula percorreu um caminho semelhante ao que levou à prisão a ex-presidente da Coreia do Sul e encaminha nessa direção o sucessor de Mandela na África do Sul.

Repetindo o mesmo mantra dos advogados, Lula se declara vítima de uma perseguição judicial. Qual a semelhança, porém, com os “processos de Moscou”, o modelo desse tipo de tendenciosidade, descrito com uma força lancinante por Arthur London no clássico A Confissão?

Lula foi acusado pelo fiscal da lei e dono da ação penal, o Ministério Público, com o uso regular dos poderes constitucionais que lhe foram conferidos em 1988.

O MPF falsificou as provas? Foi a alegação da defesa de Lula. O juiz Sérgio Moro entendeu o contrário e condenou Lula. Moro queria se vingar de Lula, repetiu a defesa. O colegiado de três desembargadores, à unanimidade, rejeitou a alegação e manteve a sentença, ampliando o prazo da pena de um terço.

Todos os desembargadores estavam na trama? O STJ confirmou-os, por 5 a 0. O STJ também faz parte da urdidura? A instância final – e mais política – por maioria – entendeu que não. E agora? Lula vai fundar uma nova justiça?

E se não conseguir, escapará para sempre graças ao processo de meta-psicose, desmaterializando-se para reviver em milhões de pessoas como espírito e ideia? Nem Mao nem Stálin nem Hitler conseguiram essa façanha, ao menos se apresentando como objeto e autor dessa transubstanciação, consumada em pleno palanque pré-eleitoral.

O reitor Tourinho fez o seu discurso para agradecer pelo que Lula fez em favor das universidades públicas. A UFPA se orgulha de ser a maior e mais respeitada universidade do norte do país. Mas só é a 27ª pelos critérios de qualidade, embora a 13ª por matrículas, num evidente descompasso entre qualidade e quantidade.

Por qualidade, as três primeiras da lista por matrículas estariam no rabo da fila. Todas elas particulares, emergentes sob o domínio do PT, somam 300 mil matrículas. A antiga líder, a de melhor posição no ranking mundial, a USP, está em quarto lugar pelo número de estudantes matriculados. É o efeito do financiamento subsidiado de estudantes amealhados por essas instituições privadas na bacia das almas do ensino superior. Realização legítima do populismo retórico do petista, fachada edulcorado do compadrio com empresários amigos.

Ao pedir longa vida a Lula e fazer-lhe a hagiografia, o reitor expressou o pensamento da universidade que dirige ou deu aparência de universalidade a 2% dos integrantes do corpo docente da instituição, com seus 2,5 mil membros?

Apesar dessa frágil legitimidade, o 13 reitor da universidade, o 9º após a redemocratização do Brasil, em 1985 (o último, nos anos da ditadura, foi Daniel Queima Coelho de Souza), considera essa minoria como vanguarda dos novos tempos ou, na verdade, ela é a prova que só democracia formal, quando tutelada por um pequeno número de iluminados sectários, impede que a democracia se torne verdadeira e real?

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