Sexta, 13 Abril 2018 18:16

Belém pede socorro

Escrito por Lúcio Flávio Pinto
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O pior desafio em Belém – e uma aventura desgastante e perigosa, com risco de morte – é a circulação diária pela cidade. Insegurança física e emocional quase absoluta à parte, o que choca é o sofrimento para quem vai de um ponto a outro, perto ou distante, a pé ou de carro, em ônibus ou veículo particular.

O abuso e o absurdo quase igualaram o padecimento público. Semi-igualdade nivelada por baixo – logo, pior para o mais pobre, o que espera pelo ônibus em desabalada corrida, a queimar pontos,  em paradas, quando elas existem, raramente cobertas, sempre precárias, oferendas ao assalto e ao assassinato

As dificuldades naturais do sítio no qual a cidade foi erguida quatro séculos atrás seriam facilmente superadas se não houvesse um complicador: a incompetência das administrações públicas. Combinada com a passividade inacreditável da população, que parece sair da etapa da brutalização e insensibilização para a patologia do masoquismo. Sofre tanto que se viciou no sofrimento.

Em estado doentio no seu cotidiano, Belém foi ficando para trás no conjunto das capitais e grandes cidades do Brasil. Está no rabo da fila. Perdeu até o senso crítico – e mais: autocrítico. Olha-se no espelho e não vê sua nudez. Imagina-se ricamente vestida. Por isso, não se corrige.

Um exemplo recente e patético dessa síndrome. O governo construiu um viaduto, conectado ao maior campo de batalha do deficiente e mambembe sistema viário da região metropolitana de Belém, a avenida Augusto Montenegro. Na entrega do equipamento, descobre-se que a passagem sob o viaduto não possui a altura legal estabelecida pelo DNIT.

É preciso aprofundar as pistas. Quando elas foram inauguradas, um caminhão se entalou na estrutura e quase provoca um acidente grave. O serviço de rebaixamento vai demorar 90 dias. Significa aquecer ainda mais o fogo do inferno diário de quem vai e volta por ali e por todo perímetro de influência desse desastroso esquecimento, apesar de elementar. A presença da Semob, supostamente encarregada da mobilidade urbana, para orientar o trânsito, é bissexta, quando dá os ares da sua graça.

Quem é o autor do projeto? Quem, ao executá-lo, deixou de conferi-lo? Quem foi responsabilizado? Em quanto foi onerado o custo original do viaduto (em homenagem ao engenheiro José Augusto Affonso, com sua memória maculada pelo malfeito)? Quem vai responder por esse acréscimo devido à inépcia do autor? Por que o reparo não pode ser feito com menor prazo de tempo?

O tempo (como a verba) é o que menos interessa aos gestores da mobilidade urbana. O BRT é o mais escandaloso exemplo desse desprezo pelo dinheiro e a paciência do contribuinte e do povo em geral. Recursos dissipados, dilapidados, desviados. Obras executadas, como as estações da Almirante Barroso e o elefante branco na caótica São Braz, mas sem serventia. Desrespeito não só ao público, mas à racionalidade, à lógica, ao mínimo do interesse coletivo.

E o que dizer de obras que estão em uso h´pa muito tempo, mas continuam a desafiar a compreensão e a aceitação? Acessos a pistas pelos quais os carros não chegam a uma pista própria, tendo que estancar e prestar atenção ao fluxo antes de buscar um lugar para continuar seu caminho, como nos viadutos da Dr. Freitas (obra de Edmilson Rodrigues, então no PT) e o da Pedro Álvares Cabral com Júlio César, versão atualizada dos mesmos erros sob Ana Júlia Carepa?

E o túnel do Entroncamento, inundado a cada chuva mais forte, intransitável quando chega água do céu e da baía?

Pobre Belém. Quem a socorre?

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