Justiça

Justiça (205)

Quarta, 04 Abril 2018 12:21

O que está em causa

Escrito por

Dentre 154 países do mundo, o Brasil é o único que exige o trânsito em julgado em última instância para autorizar a execução de sentença condenatória. Por causa desse excesso de exigências e de recursos ao longo da longuíssima instrução processual, o Brasil tem sofrido críticas, advertências e punições de cortes internacionais por não prestar a devida tutela jurisdicional. A falta da aplicação da lei gera a impunidade. Daí sermos um dos países mais injustos do planeta, além de, e por causa disso, mais desiguais.

Paradoxalmente, porém, os presídios estão superlotados. O abominável excesso de lotação degrada os detentos, mas também serve de covil para os chefes da bandidagem continuarem a despachar suas ordens, inclusive de execuções sumaríssimas, com uma constância que fulmina nossa condição de país civilizado, aos integrantes do seu bando ainda em liberdade.

De forma intensa, só a partir da Operação Lava-Jato, que tem apenas quatro anos de existência, também os distintos de colarinho branco começaram a ser aprisionados, ainda que em condições diferenciadas e favorecidas em relação ao grosso da população encarada, integrada pelos simbólicos três pês: pobres, pretos e putas.

Pela primeira vez, ainda que tenham contratado advogados famosos e caros, como o ex-presidente da OAB, José Roberto Batochio (que acaba de interromper a sessão do STF para repetir, abusivamente, em favor do seu constituinte, o que já o fizera o ministro Gilmar Mendes, supostamente pro bono), os bacanas foram em cana.

Com seus recursos e ardis, eles começaram a virar o jogo. Estão de olho na crescente onda anticorrupção que se espraia pelo país, ameaçando acabar com seus privilégios e poderes, com o enriquecimento desmesurado dos saqueadores dos cofres públicos. Uma onda que exige a mudança na constituição para que um entendimento conveniente mantenha esses “mais iguais” em liberdade, a despeito dos seus crimes e de suas condenações.

Um dos elos de aproximação do Brasil à ordem jurídica internacional em matéria de justiça penal é a eliminação das causas da impunidade dos réus de 1ª classe, que pagam advogados para fugir ao alcance da ação estatal e, mesmo quando punidos, impedir a execução da punição.

A execução antecipada da pena é este elemento de conexão do Brasil ao mundo. Ao contrário da cantilena dos doutrinadores “garantistas”, essa prática não viola a constituição; a confirma. Como mostrou o ministro Alexandre de Moras, no mais objetivo dos votos apresentados até agora, nos quase 20 anos de vigência da constituição, em 23 anos o STF entendeu como legal a execução da sentença quando confirmada em 2º grau de jurisdição.

O período de exceção, de sete anos apenas em 30 anos, foi entre 2009 e 2016. Ou seja, no penúltimo ano de Lula como presidente da república e no derradeiro ano de Dilma, antecipado pelo impeachment. Em outubro de 2016 o entendimento da corte voltou a ser o anterior.

A primeira decisão favorável à execução antecipada da pena foi dado numa turma apenas quatro meses depois que a constituição de 1988 entrou em vigor. A primeira sentença nesse sentido, em plenário. foi de dois anos depois. Ambas, tanto na turma quanto no colegiado, decisão unânime. O PT ainda não chegara ao poder e, com seus 12 anos de reinado, não fizera a maioria dos integrantes do STF.

Os ministros do STF votaram pela medida, que agora tanta celeuma provoca, conscientes do princípio constitucional da presunção da inocência. Mas também não ignoravam que esse o que esse princípio garante ao réu é ser julgado pelo juiz natural (não por um servo do Estado, escolhido a dedo), ter direito a ampla defesa, acesso à maior quantidade de recursos do que qualquer outro ordenamento jurídico em todo mundo, a garantia do duplo grau de jurisdição e tudo mais em duas instâncias.

O juiz singular e o colegiado superior, na instrução e julgamento do processo, têm ampla cognição das matérias em causa. Um juízo isolado é seguido, com a apelação, por uma revisão completa, incluindo a produção de novas provas e alegações finais. A partir da sentença de 2º grau, os tribunais superiores vão examinar apenas o mérito.

Não podem mais aceitar novas provas e qualquer matéria de fato. Por isso, o recurso especial, usado para questionar matéria federal junto ao Superior Tribunal de Justiça, e o recurso extraordinário, com questionamento constitucional ao Supremo Tribunal Federal, não têm efeito suspensivo.

Logo, não há por quê sustar a execução da pena, que em alguns países, como a França, a gloriosa pátria da revolução francesa, que introduziu os direitos humanos na consideração das nações, começa já no 1º grau. Afinal, o juiz Sérgio Moro, sozinho, os desembargadores dop TRF-4 e os cinco ministros do STJ, à unanimidade, cumpriram jurisprudência vinculante do STJ em apreciação de mandamento constitucional.

Delimitar a decisão que o STF está tomando a prender ou soltar Lula é diminuir o profundo e grave significado do que está em causa no julgamento de hoje. O que se vai decidir, à parte do destino de um grande líder político que se depravou no exercício do poder, é se o Brasil vai mudar ou vai continuar a ser dos países mais injustos e desiguais que há na Terra.

Um país que continuará a desperdiçar o seu futuro.

Quarta, 04 Abril 2018 12:19

Um voto com a marca Gilmar Mendes

Escrito por

O ministro Gilmar Mendes está no Supremo Tribunal Federal há 15 anos. Se ele tivesse ingressado hoje na corte eu teria ficado sensibilizado pelo contexto que apresentou para justificar o seu voto em favor da concessão de habeas corpus ao ex-presidente Lula, como acaba de fazer.

Com seu misto de histrionismo e dramaticidade próprios, ele alertou seus pares que as instâncias inferiores, incluindo os tribunais federais, estão cumprindo como obrigação, de forma automática, como inspiração absolutista, a jurisprudência vinculante firmada pelo STF em 2016: dão ordem de prisão a todos que têm sua sentença condenatória no juízo singular (“de baixo”, como dizem) confirmada pelo primeiro órgão colegiado.

Lendo a ementa da decisão, de autoria do falecido ministro Teori Zavascki, Gilmar Mendes disse que a prisão teria que passar a ser então entendida como possibilidade, não como regra, conforme a letra do original. Com a má interpretação dada, porém, muitas pessoas estavam mofando na cadeia com base em prisões provisórias que, julgadas em instância final, foram revogadas ou modificadas. Uma prisão que vinha sendo cumprida em regime fechado foi modificada para prestação de serviço comunitário. Como reparar o tempo de cadeia do cidadão atingido por essa circunstância?

Assim, e com muitos outros exemplos, cinco meses depois de ter contribuído para a vitória de 6 a 5 da admissão de prisão em 2ª instância, o ministro reviu seu entendimento e passou a conceder habeas corpus para evitar prisões, como acaba de fazer em benefício de Lula, decidindo no caso concreto e particular apenas – justificou.

Como o ministro est´´A na alta corte de justiça há 15 anos, surpreende que sua indignação e veemência só agora sejam apresentadas num julgamento, embora ele tenha feito o autoelogio da sua atuação administrativa anterior em um mutirão que, percorrendo os presídios brasileiros, libertou 20 mil detentos.

Se está sendo mal interpretada e dado péssimo cumprimento à decisão do STF de 2016 de admitir a antecipação da execução de sentença condenatória após confirmação no primeiro órgão colegiado que a confirmou, como fez o FR-4 em relação à sentença de Moro contra Lula, por que, ao invés de revogar esse entendimento, o ministro não votou pela sua reafirmação, enfatizando que a mudança visa uma possibilidade e não uma determinação?

Se assim fizesse, poderia examinar concretamente se o habeas corpus requerido pela defesa de Lula para o mantê-lo imune à ordem de prisão do juiz, mantida pelo colegiado do TRF-4, à unanimidade, como fez quando passou a abrir as portas das celas não a pobres, pretos e prostitutas, mas a seres “mais iguais” do que eles, como o empresário Jacó Barata e, agora, o político Luiz Inácio Lula da Silva.

Toda a parolagem jurídica do ministro Gilmar Mendes foi conversa de boca mole.

Terça, 03 Abril 2018 11:57

Ora, o bicho. Quem ele é?

Escrito por

Até mesmo pela coincidência entre as suas denominações, percebe-se que o Supremo Tribunal Federal gostaria de ser equiparado à Suprema Corte dos Estados Unidos. Ao menos na composição atual do STF, é uma pretensão desarrazoada. Para usar a velha metáfora, é tentar juntar água e vinho. São densidades completamente distintas.

De trombada em trombada, confusão em confusão e contradição em contradição, pelo excesso de verborragia dos seus membros por todos os meios, menos nos limites dos autos dos processos, a mais alta corte de justiça armou uma armadilha contra si,

Mas não ficou por aí. A armadilha deixou o Brasil quase sem saída. Uma saída até pode ser encontrada, mas à custa da descrença e da desilusão nas instituições. Elas foram ofuscadas por gente de carne e osso que a representa, mas com a estatura anã.

Os desacertos do STF criaram um território fértil, no qual o comandante do Exército plantou agora à noite a sua semente, numa mensagem pela internet. Examinado com a lupa da compreensão, o que o general Vilas Boas escreveu não excede a sua competência funcional.Nada justifica a sua punição por insubordinação ou indisciplina.

O que ele disse qualquer brasileiro sensato repetiria. Na verdade, tem repetido – e muito, mas sem ser ouvido. A audição montada pela TV Globo não é o filtro adequado. Não resultou de uma consulta ao povo para que sua dimensão expressiva tivesse o que lhe falta: legitimidade.

O que dá força à manifestação do chefe da maior e mais ativa força armada do país é justamente a sua força. Ele tem uma espada – e autorização para usá-la. Seria síndrome conspirativa interpretar o que ele disse como uma conclamação a mais um golpe militar.

O general colocou a constituição acima de tudo. Ser seu guardião é a missão mais nobre das forças armadas. Devia sê-lo mais ainda para o STF. Mas o STF, com suas decisões políticas, transformou a carta magna da nação em um colcha de retalhos, tecida pelas conveniências de momento e interesses particulares, os perigos sobre os quais o general fez a sua advertência.

Para quem ele mandou o seu grave recado? Para o presidente Michel Temer? Para Lula? Para o STF? Para os radicais de direita e de esquerda? A rigor, se ele falou em tese, para todos. Tal é a crise de valores na cúpula do serviço e na elite empresarial, reunidas para a formação de cartéis da corrupção, que o mais fácil apontar destinatários potenciais do que excluir os justos.

De casuísmo em casuísmo, a cada nova decisão que tomava em questões da maior gravidade, com repercussão em escala nacional, resultante mais de conciliábulos impublicáveis nos bastidores do que de consulta aos tratados jurídicos e o exame criterioso dos autos, o Supremo mais se enredava na teia de uma armadilha imensa.

Agora, tudo se tornou possível, menos o direito líquido e certo, a clara determinação da lei, o interesse da nação, uma saída sem traumas e descrédito. O principal sentido da advertência do general é esta: senhores presuntivos donos da nação, vocês a estão conduzindo ao impasse, vocês estão levando o povo à descrença, vocês estão engaiolados em sua gula, mesquinhez e leviandade. O Brasil pode explodir moralmente.

A pretensa constituição cidadã do doutor Ulysses impõe quatro graus de jurisdição para que uma sentença transite em julgado e o eventual condenado à prisão seja preso. Até lá, o direito à punição estatal cessa (prescreve) para quem possui dinheiro e poder para contratar bons advogados. Sobram os pretos, pobres e putas para ir para as superlotadas cadeias, laboratórios do crime ampliado e agravado.

Dentre 195 países, ó o Brasil sanciona essa miríade infindável de recursos (como os embargos dos embargos, a que o presidente Lula ainda tem direito no TRF-4, antes da sentença que o condenou a 12 anos e um mês de prisão transite em julgado no primeiro colegiado, que é ainda a segunda instância – das quatro).

Antes de uma emenda constitucional ou de um plebiscito, em outubro de 2016 o Supremo, por maioria magra (de 7 a 4 e de 6 a 5) o Supremo deu nova interpretação ao dispositivo da constituição que só autoriza a prisão depois do último recurso previsto. A corte entendeu que a presunção de inocência é apenas um dos princípios, não o único, nem o que teria tão predominância, absoluta, que despeja os demais da paridade.

Em proveito do interesse público, da punição aos criminosos e até mesmo para, nessa matéria, tirar o Brasil dessa horrorosa exceção solitária, o STF lavrou nova jurisprudência, com efeito vinculante (tendo, por isso, que ser respeitada em todas as instâncias), reconhecendo a prisão depois de sentença transitada em julgado no primeiro colegiado.

O acórdão da decisão só foi publicado 25 meses depois, em janeiro deste ano, quando duas ações diretas de constitucionalidade foram propostas, com a intenção de fazer o STF voltar atrás, sob alegações formais, ainda assim substanciais (dentre as quais de que uma interpretativa extensiva só pode favorecer o réu e não prejudicá-lo), que anulam a iniciativa pioneira e salutar do STF. As ações permanecem por debaixo das vestes talares da presidente do STF, podendo ser liberadas se o salvo conduto for dado amanhã a Lula, abrindo as portas para a sua extensão incontrolável e o efeito vinculante.

O que faz o incontrolável ministro Gilmar Mendes? Sete meses depois de dar quórum à nova jurisprudência, e ainda sem o acórdão, ele começa a desacatá-la, mandando soltar presos, o mais bisado de todos sendo Jacó Barata, o capo dos ônibus do Rio de Janeiro (atitude tão condenada pelos petistas, que se esqueceram imediatamente do que fez Dias Toffoli em apenas 24 horas, mostrando suas garras, que usará quando substituir Cármen Lúcia na presidência da corte).

No imbróglio montado, não há saída limpa, sequer previsível pelos cânones. Tudo é possível e talvez nada seja aceitável. É se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A questão é: que bicho?

Terça, 03 Abril 2018 11:54

Caso Sefer: a íntegra da decisão

Escrito por

É com a plena responsabilidade de cidadão, jornalista e pai que reproduzo, a seguir, na íntegra (acrescida apenas de intertítulos que dei, para facilitar a leitura), a decisão do ministro Joel Ilan Paciornick, do Superior Tribunal de Justiça. Com seu ato, ele restabeleceu a condenação do deputado estadual Luiz Afonso Sefer pelo crime de ‘.

Certos trechos da longa e bem fundamentada decisão provocarão espanto, nojo e indignação. Convém lembrar, no entanto, que não se trata de folhetim pornográfico. É a manifestação do relator do processo, que decidiu monocraticamente, sem ouvir os demais integrantes da sua turma, a 5ª do STJ. Provavelmente certo de que seus pares irão aderir ao seu despacho, ainda que caiba contra ele recurso, que o defensor do parlamentar informou já haver apresentado.

Como não há matéria constitucional pré-questionada, o STJ é a instância final, só não ocorrendo ainda o trânsito definitivo em julgado da ação, proposta pelo Ministério Público Federal, por ainda caber recurso e porque o relator determinou a devolução dos autos ao tribunal de origem para que ele “prossiga no julgamento dos demais pedidos formulados em sede de apelação.”, apresentada pelo Ministério Público do Estado.

Na parte final da sua decisão, o relator critica, de forma elegante, mas também contundente, a decisão do Tribunal de Justiça do Estado. Para reformar a decisão de 1º grau, que condenou Sefer a 21 anos de prisão, inicialmente em regime fechado, mais o pagamento de 120 mil reais de indenização moral à vítima, o tribunal ignorou súmula e jurisprudência vinculante do próprio STJ, a última instância da justiça brasileira no exame das questões de mérito.

Assim procedendo, desvalorizou as abundantes e robustas provas documentais e testemunhais existentes nos autos sobre a prática do vil crime, repetido ad nauseam ao longo de quatro anos, dos 9 aos 13 anos da sua vítima indefesa.

Com sua autoridade, o ministro se sentiu obrigado a se referir cruamente a essas provas, que nos causam estupor e revolta. Embora o processo esteja sob segredo de justiça, o acórdão aqui reproduzido foi publicado na edição do Diário da Justiça eletrônico de 23 de março. E é assim que tem que ser mesmo.

 O sigilo é para proteger a vítima, ao início da ação com apenas 13 anos (hoje, com 20), mantida sob anonimato pelo programa de proteção do governo federal. Não é para poupar o autor de um crime que brada aos céus e clama por justiça severa, na medida da violência que praticou.

Digo isso não eu, mas o ministro Joel Ilan Paciornik, do alto da sua nobre função. É preciso tomar conhecimento do seu voto para que se tenha consciência do alcance do desrespeito à vida humana, a violação à dignidade das pessoas, a violência à integridade física do cidadão, o ultraje à infância.

 Também para que se saiba escolher melhor os agentes públicos designados pela vontade popular. Para que, igualmente, a justiça não se transforme em cúmplice de ignomínias ao tirar a venda e favorecer os “mais iguais”, ou iguais inter pares, entre os seus pares de uma elite abusiva e malsã,

E que se tenha mais um exemplo da necessidade de rever as leis, inclusive a constituição, para impedir que suas utopias metafísicas (neste momento de crise, delirantes), acabem por induzir a impunidade pela prescrição do dever estatal de punir os criminosos, que se valem de advogados famosos (e caros) para intimidar a todos e ficar ao largo do efeito de seus atos nefandos.

Espero não ficar só nesta minha grave e meditada decisão.

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.414.755 – PA (2013/0093530-9)

RELATOR : MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK

RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

RECORRENTE : L A L – ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO

ADVOGADOS : BRUNO GUIMARÃES MEDEIROS GARCIA – PA011813

WANAIA TOMÉ DE NAZARÉ – PA012339

RECORRIDO : L A DE P S

ADVOGADOS : MÁRCIO THOMAZ BASTOS E OUTRO(S) – SP011273

OSVALDO JESUS SERRÃO DE AQUINO E OUTRO(S) –

PA001705

ADVOGADA : MAIRA BEAUCHAMP SALOMI E OUTRO(S) – SP271055

DECISÃO

Trata-se de recurso especial interposto com fulcro no art. 105, inciso

III, alíneas “a” e “c”, da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará.

Consta dos autos que o recorrido foi condenado pela prática do delito

tipificado no art. 217-A c/c art. 71, ambos do Código Penal (estupro de vulnerável em continuidade delitiva) à pena de 21 anos de reclusão, em regime inicial fechado.

Irresignada, a defesa interpôs recurso de apelação, o qual foi provido,

por maioria, para absolver o recorrido, conforme se observa do acórdão cuja ementa segue transcrita (fls. 1835/1856):

APELAÇÃO. ESTUPRO DE VULNERÁVEL.

IMPUTAÇÃO BASEADA NOS DEPOIMENTOS DA SUPOSTA VÍTIMA.

PROVA NÃO RATIFICADA PELOS DEMAIS ELEMENTOS

COLIGIDOS DURANTE A INSTRUÇÃO PROCESSUAL. PROVA

INSUFICIENTE PARA A CONDENAÇÃO PRINCIPIO DO ESTADO DE

INOCÊNCIA: CARACTERÍSTICA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE

DIREITO. RECURSO PROVIDO. DECISÃO POR MAIORIA.

I – Réu condenado a 21 anos de reclusão, por crimes de

estupro de vulnerável supostamente praticados em continuidade

delitiva. Condenação baseada nos depoimentos da autodeclarada

vitima, que influenciaram as percepções das testemunhas e as

avaliações das profissionais que a atenderam posteriormente

II – Consoante jurisprudência sedimentada no Brasil, a

condenação do réu por crimes que se caracterizem pela

clandestinidade exige que se empreste particular relevância a palavra

da vítima que, por vezes, é a única pessoa capaz de fornecer

informações capazes de revelar os fatos ocorridos. Contudo, num

regime processual de garantias, como e o brasileiro, por força dos

princípios e normas consignados na Constituição de 1988, exige-se

que a prova haurida junto à vítima seja corroborada por outros

elementos concretamente produzidos nos autos.

III- Trata-se de uma decorrência da regra de que cabe ao

Ministério Público demonstrar de forma cabal a imputação, sem o que

a absolvição é o que se impõe, inclusive porque não se exige do réu

que prove a própria inocência.

IV – A palavra da vítima, como meio de formação do

convencimento do julgador serve tanto para condenar quanto para

absolver. Entendimento diverso colocaria o status libertatis do réu à

mercê de ficções processuais, o que contraria o princípio do estado de

inocência, cânone do Estado Democrático de Direito.

V – Recurso provido. Decisão por maioria.

Rejeição do recurso do MP

O Ministério Público, bem como o seu assistente, manejou embargos

de declaração, os quais foram rejeitados, nos termos do acórdão assim ementado

(fls. 1928/1945):

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM APELAÇÃO.

CONTAGEM DO PRAZO RECURSAL. DO ASSISTENTE DE

ACUSAÇÃO. VALIDADE DA INTIMAÇÃO NA PESSOA DO

ADVOGADO QUE SUBSCREVEU AS ALEGAÇÕES FINAIS, AINDA

QUE HAJA OUTROS. REGULARIDADE DA INTIMAÇÃO PUBLICADA

COM 24 HORAS DE ANTECEDÊNCIA. APRESENTAÇÃO DE

MEMORIAIS: MERA FACULDADE, DISPENSA A INTIMAÇÃO DA

PARTE CONTRÁRIA. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO E OBSCURIDADE

NÃO CARACTERIZADAS. PREQUESTIONAMENTO EXPLÍCITO:

EXIGIBILIDADE. EMBARGOS REJEITADOS. DECISÃO POR

MAIORIA,

I – A Súmula n. 448 do Supremo Tribunal Federal dispõe

que “o prazo para o assistente recorrer supletivamente começa a

correr imediatamente após o transcurso do prazo do Ministério

Público”, mas se deve entender que tal prazo deve ser contado a partir

da restituição dos autos pelo Parquet, e não do protocolo dos

embargos declaratórios, pois sem acesso aos autos não é possível

que a parte exerça plenamente a sua pretensão recursal.

II – Rejeita-se a preliminar de nulidade por falta de

intimação, para a sessão de julgamento da apelação, da advogada que

efetivamente patrocinou a assistente de acusação em segunda

instância, porque não houve substabelecimento e o art. 146, § 1°, do

Regimento Interno desta corte, assegura a intimação na pessoa do

advogado que haja assinado petições ou requerimentos, não

obrigando que sejam os mais recentes. In casu, constata-se que a

intimação ocorreu na pessoa do advogado que subscreveu as

alegações finais.

III – O art. 117 do Regimento Interno prevê, também, a

publicação do edital de intimação com antecedência mínima de 24

horas, em se tratando de processos criminais, o que foi respeitado no

caso, não se podendo falar em nulidade por suposta falta de tempo de

preparação, pela patrona da parte.

IV – Rejeita-se a preliminar de nulidade do julgamento por

falta de intimação da acusação para se manifestar sobre documento,

haja vista que a apresentação de memoriais constitui mera faculdade,

não sendo portanto ato essencial à defesa. Precedentes do STF.

MP: recurso acolhido

Em sede de recurso especial, o Parquet alega violação ao disposto

nos arts. 155 e 239, ambos do Código de Processo Penal, bem como no art. 217-A do Código Penal. Aduz ainda haver dissídio jurisprudencial.

Sustenta a acusação que o aresto recorrido está totalmente dissociado

das provas dos autos, assim como padece de ausência de motivação. Isso porque a Corte de origem não teria atribuído o devido valor às declarações da vítima, que se mostram coerentes e harmônicas com as demais provas acostadas aos autos.

Dessa forma, alega, em resumo, que o órgão julgador não valorou a

robusta prova indiciária, nem as provas periciais e testemunhais, as quais

corroboram a palavra da vítima e dão sustento à acusação.

O recurso especial foi contrarrazoado às fls. 2180/2195.

Inadmitido na origem, o Ministério Público interpôs agravo, que por

decisão monocrática do Ministro Moura Ribeiro foi provido para determinar sua autuação como recurso especial (fl. 2383).

Contra referida decisão a defesa não interpôs recurso; contudo,

apresentou pedido de reconsideração, postulando o reconhecimento da

intempestividade do agravo ministerial (fls. 2399/2410).

A Quinta Turma desta Corte, por entender que a tempestividade

recursal constitui matéria de ordem pública, não se sujeitando, pois, à preclusão, decidiu, por maioria, não conhecer do recurso especial, uma vez que intempestivo o agravo aviado pelo Ministério Público.

Eis a ementa do decisum (fls. 2493/2506):

RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL.

INTEMPESTIVIDADE. RECONHECIMENTO A QUALQUER TEMPO.

MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. PRAZO DE 5 (CINCO) DIAS.

AGRAVO DO MINISTÉRIO PÚBLICO INTEMPESTIVO. ART. 28, DA

LEI Nº 8.038/90 E SÚMULA 699, DO STF. RECURSOS ESPECIAIS

NÃO CONHECIDOS.

  1. A intempestividade é questão de ordem pública não

submetida a preclusão.

  1. O Supremo Tribunal Federal, com a edição da Súmula

n.º 699, pacificou o entendimento de que o prazo para interposição de

agravo em recurso especial é de 5 (cinco) dias, nos termos do art. 28,

da Lei n.º 8.038/90, norma especial, que prevalece sobre as

disposições gerais.

  1. O prazo para a interposição de recurso por parte do

assistente de acusação que já estava habilitado no processo, se dá a

partir de sua intimação.

  1. Recursos Especiais não conhecidos.

Os embargos de declaração opostos pela acusação em face do

acórdão supratranscrito restaram rejeitados (fls. 2580/2582).

Ainda inconformado, o órgão acusatório interpôs recurso de embargos

de divergência, em cujo julgamento a Corte Especial deste Sodalício assinalou que não havendo interposição de recurso contra decisão que converte o AREsp em REsp, fica preclusa a análise dos pressupostos de admissibilidade do agravo.

O acórdão restou assim ementado (fls. 2712/2715):

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. AGRAVO DE

INSTRUMENTO PROVIDO. DETERMINAÇÃO DE CONVERSÃO EM

RECURSO ESPECIAL. REEXAME DA TEMPESTIVIDADE DO

AGRAVO QUANDO DO JULGAMENTO DO PRÓPRIO RECURSO

ESPECIAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECLUSÃO.

  1. Não cabe, quando do julgamento do recurso especial,

reexaminar de ofício a tempestividade do agravo de instrumento

anteriormente provido (e, portanto, implícita ou explicitamente

conhecido) para determinar o processamento do recurso especial. Não

tendo sido interposto o recurso pertinente contra essa decisão, está

preclusa a matéria (CPC, art. 473). Assim, o juízo de admissibilidade,

nesse momento, é apenas do próprio recurso especial (Corte Especial:

EREsp n. 171.499/RS e EREsp n. 218.863).

  1. Embargos de divergência providos.

Diante disso, o presente feito, por prevenção de ministro, foi

redistribuído à minha relatoria (fl. 2956).

O Ministério Público Federal, em parecer formalizado às fls.

2366/2377, manifestou-se pelo provimento do recurso especial.

É o relatório.

Decido.

Decisão preliminar do relator no STJ

De início, cumpre observar que a controvérsia cinge-se à revaloração

dos critérios jurídicos utilizados pela Corte Local na apreciação do material cognitivo incontroverso, que se encontra expressamente admitido e delineado tanto na sentença quanto no acórdão recorrido. Portanto, a análise do pleito ministerial prescinde da incursão no contexto probatório, razão pela qual não vislumbro, no caso, a incidência do Verbete n. 7 da Súmula desta Corte.

No sentido da possibilidade de revaloração dos fundamentos e dados

expressamente admitidos no acórdão recorrido, são os seguintes precedentes:

RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL.

DOLO DE SATISFAÇÃO DA LASCÍVIA. CONTRAVENÇÃO PENAL.

VÍTIMA CRIANÇA DE 9 ANOS. INCOMPATIBILIDADE. ART. 217-A

DO CÓDIGO PENAL. CONSUMAÇÃO. QUALQUER ATO DE

LIBIDINAGEM OFENSIVO À DIGNIDADE SEXUAL. RECURSO

ESPECIAL PROVIDO.

  1. A controvérsia atinente à desclassificação para a

contravenção penal prevista no art. 61 do Decreto-Lei n. 3.688/1941

prescinde do reexame de provas; é suficiente a revaloração de fatos

incontroversos explicitados no acórdão recorrido.

  1. Nega-se vigência ao art. 217-A do CP quando, diante

de atos lascivos diversos da conjunção carnal e atentatórios à

liberdade sexual da vítima (criança), desclassifica-se a conduta para

contravenção penal, ao fundamento de que o ato de manipular o corpo

e forçar o toque em seu órgão genital não revelam o dolo de satisfação

da lascívia, elementar do delito em discussão.

  1. A proteção integral à criança, em especial no que se

refere às agressões sexuais, é preocupação constante de nosso

Estado, constitucionalmente garantida (art. 227, caput, c/c o § 4º da

Constituição da República), e de instrumentos internacionais.

  1. É pacífica a compreensão de que o delito de estupro

de vulnerável se consuma com a prática de qualquer ato de

libidinagem ofensivo à dignidade sexual da vítima. Precedentes.

  1. Recurso especial provido, a fim de reconhecer a

contrariedade do acórdão ao art. 217-A, caput, do Código Penal e

condenar o ora recorrido como incurso nas penas desse dispositivo.

Determinado o retorno dos autos ao Tribunal de origem, para que

proceda à análise dos pedidos relativos à dosimetria constantes da

apelação.

(REsp 1705093/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI

CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 27/02/2018, DJe 08/03/2018)

PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL

NO RECURSO ESPECIAL. CONTRAVENÇÃO PENAL.

DESCLASSIFICAÇÃO. PRÁTICA DE ATOS LIBIDINOSOS

DIVERSOS DA CONJUNÇÃO CARNAL. ESTUPRO DE

VULNERÁVEL. ART. 217-A DO CP. POSSIBILIDADE.

QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DOS FATOS. SÚMULA 7/STJ. NÃO

INCIDÊNCIA.

  1. A revaloração dos critérios jurídicos concernentes à

utilização e à formação da convicção do julgador não encontra óbice

na Súmula 7/STJ. É que a análise dos fatos e fundamentos

expressamente mencionados no acórdão recorrido não constitui

reexame do contexto fático-probatório, e sim valoração jurídica dos

fatos já delineados pelas instâncias ordinárias. 2. Segundo o art. 217-A

do CP – Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com

menor de 14 (catorze) anos -, a consumação do crime de estupro de

vulnerável pode ocorrer com a prática de atos libidinosos diversos da

conjunção carnal.

  1. Na expressão “ato libidinoso” estão contidos todos os

atos de natureza sexual, diversos da conjunção carnal, que tenham a

finalidade de satisfazer a libido do agente. Dessa forma, com base no

contexto fático delineado pela Corte de origem, a conduta do réu, em

tentar apalpar os seios da vítima, de 13 anos, por dentro da blusa, e

beijá-la, não pode ser confundida com a do art. 61 da Lei de

Contravenções Penais, uma vez que se trata de efetivo contato

corpóreo com a adolescente, com o propósito único de satisfação de

seu desejo sexual, conforme consignado pela Corte de origem. 4.

Assim, a conduta imputada ao acusado se coaduna com

a figura típica descrita no art. 217-A do Código Penal, estando a

autoria e a materialidade delitiva evidenciadas nos autos, por meio das

palavras da vítima, de testemunhas e parecer psicológico.

  1. Agravo regimental não provido.

(AgRg no REsp 1702065/RS, Rel. Ministro REYNALDO

SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 06/02/2018,

DJe 19/02/2018)

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO

ESPECIAL. ESTUPRO. ART. 213, § 1º, DO CÓDIGO PENAL – CP.

CONDUTA DESCLASSIFICADA PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS

PARA A CONTRAVENÇÃO PENAL DO ART. 61 DO DECRETO-LEI

  1. 3.688/41. 1) RECURSO ESPECIAL DA ACUSAÇÃO PROVIDO

PARA CONDENAR O AGRAVANTE POR ESTUPRO. AGRAVANTE

QUE PASSOU A MÃO NA VÍTIMA, INCLUSIVE EM SUA GENITÁLIA,

SOBRE AS ROUPAS, COM INTENTO DE ACARICIÁ-LA, MEDIANTE

GRAVE AMEAÇA. 2) TIPIFICAÇÃO QUE OFENDE A

PROPORCIONALIDADE. FUNDAMENTO INIDÔNEO. 3) ÓBICE DO

REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 7 DO STJ.

INOCORRÊNCIA. REVALORAÇÃO DE PROVAS. 4) AGRAVO

REGIMENTAL DESPROVIDO.

  1. A conduta de passar a mão no corpo da vítima,

inclusive em sua genitália, ainda que por sobre a roupa, com intento de

acariciá-la, mediante grave ameaça, configura o delito de estupro.

Precedentes.

  1. Não se admite a utilização da proporcionalidade para

afastar a tipificação delitiva, podendo esta ser utilizada na fixação da

pena. Precedentes.

  1. A discussão acerca de fatos incontroversos constantes

das decisões das instâncias ordinárias não configura o revolvimento

fático-probatório, vedado pela Súmula 7 do Superior Tribunal de

Justiça – STJ.

  1. Agravo regimental desprovido.

(AgRg no AREsp 860.008/MG, Rel. Ministro JOEL ILAN

PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 12/12/2017, DJe

01/02/2018)

PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO

ESPECIAL. ART. 217-A DO CÓDIGO PENAL. ESTUPRO DE

VULNERÁVEL. VÍTIMA MENOR DE 14 ANOS. FATOS

EXPLICITAMENTE ADMITIDOS E DELINEADOS NO V. ACÓRDÃO

PROFERIDO PELO EG. TRIBUNAL A QUO. NÃO INCIDÊNCIA DO

ÓBICE PREVISTO NA SÚMULA 7/STJ.

A revaloração da prova ou de dados explicitamente

admitidos e delineados no decisório recorrido, quando suficientes para

a solução da quaestio, não implica o vedado reexame do material de

conhecimento. Os elementos probatórios delineados no v. acórdão

increpado são suficientes à análise do pedido, exigindo, tão somente,

a revaloração da situação descrita, o que, ao contrário, admite-se na

via extraordinária.

Agravo regimental não provido.

(AgRg no REsp 1625786/SC, Rel. Ministro FELIX

FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 12/12/2017, DJe 01/02/2018)

PENAL. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR.

CONSUMAÇÃO. DESNECESSIDADE DO REEXAME FÁTICO.

PRÁTICA DE ATO LIBIDINOSO DIVERSO DA CONJUNÇÃO

CARNAL. VIOLAÇÃO DO ART. 214, C/C ART. 14, II, AMBOS DO

CÓDIGO PENAL, NA ANTIGA REDAÇÃO. RECURSO ESPECIAL

PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO.

  1. A controvérsia atinente ao inadequado reconhecimento

da tentativa do crime de atentado violento do pudor prescinde do

reexame de provas, sendo suficiente a revaloração de fatos

incontroversos explicitados no acórdão recorrido.

  1. Quando o agente, para satisfazer sua lascívia, retira a

roupa da criança, inclusive a calcinha, e toca-lhe o corpo (“perna”), há

de se reconhecer o crime de atentado violento ao pudor (atual estupro

de vulnerável – art. 217-A do CP) na sua modalidade consumada.

  1. “A proteção integral à criança, em especial no que se

refere às agressões sexuais, é preocupação constante de nosso

Estado, constitucionalmente garantida (art. 227, caput, c/c o § 4º da

Constituição da República), e de instrumentos internacionais.” (REsp

1.028.062/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA

TURMA, julgado em 02/02/2016, DJe 23/02/2016) 4. Recurso provido,

para que seja afastada a incidência da tentativa (art. 14, II, do CP) e

restabelecida a sentença condenatória.

(REsp 1290867/RS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS,

QUINTA TURMA, julgado em 12/12/2017, DJe 19/12/2017)

Impugnação da defesa rejeitada

Dessa forma, considerando que a questão aqui colocada refere-se à

revaloração das provas expressamente admitidas, e que a discussão sobre sua suficiência constituiu o núcleo essencial da fundamentação do aresto ora impugnado, não há se falar em ausência de prequestionamento, ficando, assim, afastada a incidência das Súmulas 282 e 356 do STF.

Além disso, observa-se que a acusação individualizou, de forma clara

e objetiva, os dispositivos legais tidos como violados, assim como expôs as razões pelas quais entende que o Tribunal de origem vulnerou os aludidos dispositivos.

Destarte, a fundamentação vertida no apelo permite a exata compreensão da controvérsia, de maneira que a Súmula 284/STF não constitui óbice ao

conhecimento do presente recurso.

A combativa defesa ainda sustenta, em suas contrarrazões recursais,

que a divergência jurisprudencial não foi devidamente comprovada nos moldes legais e regimentais. Todavia, razão não lhe assiste.

O membro do Parquet, em cotejo analítico, demonstrou a similitude

fática entre o aresto paradigma e o aresto guerreado, bem como demonstrou a dissonância entre suas conclusões jurídicas. Ademais, procedeu à juntada de cópia do inteiro teor de ambos os acórdãos confrontados.

De todo modo, considerando que a dissonância aborda a mesma tese

amparada pela alínea “a” do permissivo constitucional, uma vez conhecido o recurso por esta alínea, fica prejudicada a análise do dissídio jurisprudencial, sendo irrelevante a existência de eventuais vícios na comprovação da divergência.

A propósito, são os julgados:

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA

DE TÍTULO EXECUTIVO. IMPROCEDÊNCIA.HONORÁRIOS

ADVOCATÍCIOS. IRRISORIEDADE. MAJORAÇÃO. POSSIBILIDADE.

DECISÃO MANTIDA.

  1. […]
  2. O conhecimento do recurso especial pela alínea “a” do

permissivo constitucional dispensa a análise da divergência

jurisprudencial alegada sobre a mesma questão. Precedentes.

  1. Agravo interno a que se nega provimento.

(AgInt no REsp 1676350/PR, Rel. Ministro ANTONIO

CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 12/12/2017, DJe

18/12/2017)

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL.

HOMICÍDIO TENTADO. TRÂNSITO. DOLO EVENTUAL.

COMPATIBILIDADE COM A TENTATIVA. PRECEDENTES DO STJ.

MATÉRIA PREQUESTIONADA. SÚMULA 126/STJ.

INAPLICABILIDADE. DISSÍDIO SUFICIENTEMENTE

DEMONSTRADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.

  1. […]
  2. O dissídio jurisprudencial foi razoavelmente

demonstrado e ainda que assim não fosse, o recurso comportava

provimento pela alínea a do permissivo constitucional.

  1. […]
  2. Agravo regimental improvido.

(AgRg no REsp 1176324/RS, Rel. Ministro REYNALDO

SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 16/02/2016,

DJe 23/02/2016)

Portanto, presentes os pressupostos de admissibilidade.

Passo ao mérito do apelo.

Valor do testemunho da vítima

Como cediço, os crimes contra a dignidade sexual, via de regra, são

perpetrados na clandestinidade, sem testemunhas, e a prova pericial nem sempre se mostra conclusiva quanto à autoria delitiva. Por esses motivos, a palavra da vítima, quando firme, coerente e corroborada pelas demais evidências dos autos, adquire especial valor probatório.

Não é outro o longevo entendimento desta Corte:

CRIMINAL. RESP. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR.

ABSOLVIÇÃO EM SEGUNDO GRAU. REVALORAÇÃO DAS

PROVAS. PALAVRA DA VÍTIMA. ESPECIAL RELEVO. AUSÊNCIA

DE VESTÍGIOS. RECURSO PROVIDO.

  1. Hipótese em que o Juízo sentenciante se valeu,

primordialmente, da palavra da vítima – menina de apenas 8 anos de

idade, à época do fato -, e do laudo psicológico, considerados

coerentes em seu conjunto, para embasar o decreto condenatório.

  1. Nos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, a

palavra da vítima tem grande validade como prova, especialmente

porque, na maior parte dos casos, esses delitos, por sua própria

natureza, não contam com testemunhas e sequer deixam vestígios.

Precedentes.

III. Recurso provido, nos termos do voto do Relator.

 (REsp 700.800/RS, Rel. Ministro GILSON DIPP, QUINTA

TURMA, julgado em 22/03/2005, DJ 18/04/2005, p. 384)

PENAL E PROCESSUAL PENAL. ESTUPRO.

ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR. PALAVRA DA VÍTIMA E VALOR

PROBATÓRIO. VALORAÇÃO DE PROVA. CP, ARTIGOS 59 E 213.

VIOLAÇÃO. LIVRE CONVENCIMENTO.

  1. Atribuído peso absoluto ao laudo pericial,

 em detrimento da palavra da vítima e demais provas dos autos, há que se

entender violado o CP, artigos 213 e 59. Hipótese de valoração do

material probatório, não incidindo a Súmula 07 do STJ.

  1. Necessário observar, para fins de fixação da pena, a

culpabilidade, os antecedentes, a conduta social, a personalidade do

agente, as circunstâncias e consequências do crime.

  1. O Juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo

utilizar, para a formação de sua convicção, elementos outros provados

nos autos. Incidência do princípio do livre convencimento do juiz,

inscrito no CPP, Art. 157 4. Dissenso pretorial demonstrado, nos

moldes regimentais.

  1. Recurso conhecido e provido.

(REsp 108.944/DF, Rel. Ministro EDSON VIDIGAL,

QUINTA TURMA, julgado em 01/10/1998, DJ 03/11/1998, p. 187)

Na hipótese dos autos, a Douta Juíza Singular, em prestígio à palavra

da ofendida, assinalou que os “depoimentos colhidos das testemunhas e,

sobretudo, nas declarações consistentes e seguras prestadas pela vítima” permitem vislumbrar “a existência de um conjunto probatório coerente e harmônico entre si“.

Pois bem.

Conforme se extrai da sentença, a vítima, quando ouvida em sede policial, narrou com riqueza de detalhes a dinâmica delitiva, e, um ano após a ocorrência dos fatos, doravante em juízo, ratificou suas declarações, segundo as quais fora estuprada pelo acusado durante quatro anos.

Perante a autoridade policial, a vítima narrou (fl. 1585):

“[…] que, nos primeiros dias dos abusos sexuais,

SEFFER toda noite ia para o quarto da informante e metia tal ferro e as

vezes só o dedo e passava a beijá-la e passar a mão em seu corpo;

Que, aproximadamente depois de uma semana SEFFER passou a lhe

estuprar de verdade, lhe penetrando a vagina, mandando fazer sexo

oral, o qual ejaculava em sua boca e a informante cuspia, tendo

SEFFER mandado a mesma engolir; Que SEFFER antes de lhe

violentar por trás, usou o ferro para abrir seu ânus e depois lhe

penetrava; Que a informante sentia muita dor, mas não conseguia sair

de baixo dele; Que a informante gritava mas SEFFER mordia suas

costas, suas mãos e pescoço; Que, SEFFEr chupava sua vagina e

metia o dedo, também , também metia o dedo sem eu ânus […]”

No mesmo sentido, a ofendida relata em Juízo (fl. 1585/1586):

“[…] que chegou na casa do réu com a roupa do corpo e

depois o réu comprou roupas para a declarante; que o réu chegava no

quarto e já ia pegando a declarante; que no início isso acontecei todas

as noites; que o réu chegava no quarto da declarante só com um

pijama, mas nos primeiros dias ele não tirava a roupa; que após alguns

dias, o réu tirava a roupa e introduzia o pênis, sem camisinha; que os

fatos aconteciam sempre à noite; que os filhos do réu estavam em

casa; que o réu ejaculava em cima da declarante e sempre dizia para a

declarante não contar para ninguém […]”

“QUE: confirma as declarações de fls 08 a 11 dos autos.

QUE: tinha 09 anos de idade quando veio a Belém. QUE: foi trazido de

Moca juba para Belém por seu Stélio Joaquim . QUE: Só conheceu o

senhor Stélio. QUE: chegou a casa de Seffer. QUE:não conhecia a

Seffer e este não tinha feito nenhuma visita a sua família. QUE: avó de

dela disse que viria a Belém para servir de companhia para a filha do

acusado. QUE: quando chegou na casa do acusado estavam: Cilene

os dois filhos: Gustavo e Rafael. QUE: na época Cilene tinha 11 ou 12

anos de idade. QUE: conversou com Cilene. QUE: Cilene trabalhava

como empregada. QUE: vinha sofrendo ameaças pois não queria mais

fazer .QUE: não queria mais ficar naquele lugar. QUE: foi abusada

sexualmente pelo Seffer e pelo filho dele, Gustavo. QUE: todos os

fatos se davam não só no apartamento em Belém mais também no Rio

de Janeiro, em Salinas. QUE: os abusos consistiram da forma que

constam no depoimento que acabou de ouvir […]”.

O acórdão recorrido também registra que a vítima prestou, ao todo, seis depoimentos, oportunidades nas quais apresentou a mesma versão dos fatos, no sentido de que “no segundo ou no terceiro dia o apelante iniciou os abusos sexuais, que envolveriam introdução de objetos na vagina, além de cópulas vaginal, anal e oral, que teriam perdurado por quatro anos” (fl. 1845).

A sentença ainda registra o depoimento de Djania Maria da Silva Cesar, quem teria acolhido a vítima em sua residência, quando esta fugiu da casa do acusado. Asseverou referida testemunha que a ofendida lhe relatou os abusos que vinha sofrendo por parte do acusado. Nessa ocasião, a vítima lhe confidenciou que o acusado fazia com ela “saliências pela frente e por trás“, além de colocar o pênis em sua boca. A testemunha também alude que a vítima lhe disse “que não contava a ninguém porque era ameaçada pelo acusado “, que dizia “que iria matar os familiares dela, inclusive a pessoa para quem ela contasse ” (fl. 1590).

Ainda consta da sentença o depoimento da testemunha Cláudia Pinheiro Alves, assistente social, que, segundo declara, “realizou o atendimento da menor e percebeu que esta demonstra grande abalo emocional, além de ter relatado com firmeza os fatos criminosos “. A propósito, cito trecho do depoimento (fl 1595):

“[…] QUE relatou na entrevista que no primeiro dia não foi abusada, mas que no segundo dia foi violentada; QUE relatou o fato a empregada doméstica e a empregada contou para o deputado e a adolescente foi espancada, que na época era criança; QUE a adolescente foi levada ao quarto e o acusado abriu as pernas delas e colocou um ferro na genitália dela, e a criança pedia para ela parar e ele não parava e que ele a usava de todas as formas e dava remédio a ela para ela não engravidar; QUE o acusado fazia sexo oral, vaginal e que uma certa ocasião ele queria chamar uma terceira pessoa e ela disse que não e ele concordou; QUE no momento que atende uma vitima criança, procura ouvir só o necessário para os procedimentos;

QUE não pediu mais socorro para ninguém; QUE havia pedido socorro a primeira vez para a empregada; QUE é Assistente Social […]”.

Portanto, do arcabouço probatório até aqui revalorado, a primeira conclusão que se extrai é que a vítima, em todas as ocasiões em que instada a se manifestar, descreve a mesma dinâmica delitiva. Ou seja, em todas as oportunidades em que precisou relatar a ocorrência dos eventos criminosos, o Fez sem oscilações, sempre expondo com firmeza e coerência os abusos sexuais contra si perpetrados.

O acusado alega que as declarações prestadas pela vítima não são verídicas. Assevera que as falsas imputações foram motivadas pelo rigor que tem no trato com a menor. Alude, inclusive, que, devido ao mau comportamento da criança, teria ameaçado devolvê-la à família. Assim, segundo sustenta, a menor teria inventado “essas estórias”, pois temia perder a “boa vida” e “os privilégios” que tinha sob seus cuidados (fls. 1581/1582 e 1836).

Ocorre, contudo, que a sentença e o acórdão recorrido dão conta de que a vítima tentou fugir por três vezes (fls. 1590 e 1845/1846); além disso, Djania Maria da Silva Cesar, em seu depoimento (fl. 1849), alega que a menor se mostrava uma criança triste e sempre que estava em sua residência não queria retornar para a casa do acusado. Ora, esse contexto denota claramente que a ofendida não estava satisfeita em morar com o acusado; pelo contrário, ao que tudo indica, a criança não queria, em hipótese alguma, permanecer sob sua custódia, tanto que resolveu fugir e buscar ajuda.

De mais a mais, a sentença e o acórdão recorrido trazem outros elementos probatórios que estão a corroborar as declarações prestadas pela vítima, não sendo certa assertiva do Tribunal a quo no sentido de que a palavra da ofendida constitui prova isolada nos autos.

Em primeiro lugar, observa-se que o aresto ora vergastado consigna o parecer da psicóloga Sara Danielle Baía da Silva, quem aduz haver “coerência entre o que a menor relata e sua característica psicológica ” (fl. 1846).

E, nesse ponto, impende uma observação. O depoimento da psicóloga não pode ser subvalorizado como elemento probatório tão somente porque derivado das declarações prestadas pela vítima; afinal, tal profissional possui a formação necessária para filtrar essas declarações e sobre elas emitir um juízo técnico. E, na hipótese vertente, a psicóloga foi categórica em afirmar a compatibilidade do estado psicológico da vítima com a situação de violência que esta alega ter sofrido.

Portanto, indubitável que o depoimento da profissional que realizou o atendimento da menor exsurge como elemento probatório que está a corroborar e a tornar mais substanciosa a palavra da vítima.

Lado outro, o parecer da psicóloga ouvida como perita contratada pela defesa não assume valor probatório relevante, pois, conforme se verifica, ela não ouviu a vítima, tendo, inclusive, assinalado que essa falta de oitiva pode induzir a erro de diagnóstico (fls. 1846/1847).

Ademais, há registrado na sentença (fl. 1596) e no acórdão recorrido (fl. 1848) laudo pericial que atesta vestígios de violência sexual. De acordo com o depoimento prestado pela perita Maria Francisca Alves, ratificado pela perita Ângela Olívia da Silva Costa, as alterações genitais e as alterações da região anal que estavam presentes na pericianda coadunam-se com o histórico da vítima. Por oportuno, transcrevo trecho do depoimento:

“QUE juntamente com a outra perita observaram que a vítima apresentava lesões características de violência sexual antiga, como consta no laudo elaborado; QUE ouviu a adolescente relatar que sofreu abuso sexual tanto vaginal como anal; (…) QUE a adolescente disse que quem fez aquelas coisas com ela era o dono da casa onde morava que era o Deputado Sefer; QUE em nenhum momento a adolescente disse ter sido abusada por outra pessoa a não ser pelo deputado; (…) QUE as perguntas na qual consta as características (sic) de letra ‘f’ esclarece que a vítima disse ter sido violentada aos nove ou dez anos, daí com o passar do tempo ficam só as cicatrizes das lesões sofridas; (…) que a confirmação da violência sexual é um conjunto de elementos que o perito se apoio (sic) para afirmar, são as alterações genitais e as alterações da região anal, que todas duas estavam presentes na pericianda, com características de antiguidade e corrobora com o histórico da vítima” (fls. 1848/1849).

Ainda há anotado no acórdão increpado (fl. 1848) laudo pericial que atesta que a vítima possui “ânus dilatado infundibuliforme, com alteração do pregueamento e lesões cicatrizadas em quadrantes anterior e posterior, sugerindo provável cópula ectópica anal antiga”. Segundo as peritas que elaboraram o laudo, a expressão “‘ânus dilatado infundibuliforme’ significa que ocorreu penetração crônica e permissiva no canal anal. A reiteração de coitos anais dá ao esfíncter um aspecto de funil, o que pode ser facilmente constatado “. As peritas ainda aludem que “a dilatação anal é consequência de penetração local, seja através cópula ou de introdução de objetos, desde que de forma crônica”, fator que vai ao encontro dos relatos prestados pela ofendida, que sempre afirmou sofrer abusos por parte do

acusado desde o segundo dia em que com ele passou a residir, e que tais abusos perduraram durante quatro anos.

Portanto, não obstante os laudos periciais não comprovarem diretamente a autoria delitiva – tal como alude a Corte Local –, indene de dúvidas que emergem como mais um elemento de informação que está a alicerçar as

declarações prestadas pela vítima.

Também de suma importância são os depoimentos prestados por Joaquim Oliveira dos Santos, Estélio Marçal Guimarães e João Raimundo Amaral

Pimentel. Segundo eles, o acusado teria “encomendado” uma criança do sexo feminino com idade entre oito e dez anos. E, como bem ponderado pela Magistrada Singular, tal fator denota premeditação criminosa (fl. 1594).

A propósito, cito excerto do depoimento de João Raimundo Amaral:

” […] QUE tudo o que declarou na Policia é verdade; QUE quando o acusado disse que precisava de uma pessoa disse que ele  disse que tinha que ser uma criança do sexo feminino; QUE tinha que ser urna criança; QUE não lembra com precisão, mas que tinha que ser entre oito e dez anos; QUE a criança era para fazer dama de companhia para a filha do acusado; QUE em conversa na Assembleia o deputado pediu para arranjar essa criança e disse que quem poderia arranjar era Joaquim e quem arranjou a criança foi o Joaquim; QUE apenas trouxe a criança; QUE Joaquim lhe informou que tinha arranjado a criança pedindo que trouxesse para Belém e assim fez; QUE foi apanhar a criança no bairro da Pratinha e quem lhe entregou a criança foi a avó Tereza […]”

“[…] QUE todas as declarações prestadas são verdadeiras; QUE é verdade que o deputado Sefer pediu uma criança entre nove e dez anos; QUE não conhece os familiares de Sefer e não sabia que ele tinha filha e que o conheceu através de Estelio; QUE a família da criança não se opôs da criança vier para Belém na casa de Sefer, inclusive ela veio muito rápido; QUE a sua cunhada Marlene é parenta do pessoal da vítima e foi ela quem conversou com a Tereza, avó da criança tia legítima de Marlene […]” (fls. 1594/1595).

Sobre mencionada “encomenda”, o réu procura justificar-se, aduzindo tê-lo feito por uma questão filantrópica, sendo seu intento apenas fornecer educação e melhores condições de vida à criança.

Contudo, o que se observa, no caso, é que tal justificativa não encontra respaldo nas demais provas alinhavadas na sentença e no aresto objurgado. As supostas intenções filantrópicas do acusado são contrariadas pelos depoimentos prestados pelas testemunhas Maria de Lourdes Lima Souza e Christiane Ferreira da Silva Lobato.

A testemunha Maria de Lourdes aduz: “que as vezes que via Silmara [vítima] a mesma sempre trajava roupas simples, calça jeans e blusinhas; “que nunca viu Silmara chegar em carros particulares, pois sempre estava trabalhando”; “que estranhava o fato de Silmara nunca ir para o colégio”; “que Silmara sempre acompanhava as sobrinhas da depoente quando iam para o colégio e então perguntou a mesma pelo fato de não ir ao colégio, tendo esta respondido que não ia porque não tinha uniforme”; “que achou estranho o fato de Silmara ser sobrinha de uma pessoa de posse e ir para o colégio a pé” (fls. 1592/1593).

Por sua vez, a testemunha Christiane Ferreira (Delagada de Polícia que presidiu o Inquérito Policial) alega: “que quando foi ouvir o Deputado e a mulher dele sobre o caso, respondeu que ele não tinha nenhuma informação acerca da adolescente, nome de pai, ou mãe, ou onde residia”; “que o acusado relatou que a adolescente era problemática e apresentava comportamento diferenciado e perguntou a ele se ela já tinha sido assistida por algum psicólogo e ele respondeu que não que em todo este tempo ela só teve um atendimento odontológico”; que os filhos do acusado estudavam no colégio Nazaré, frequentavam clubes e academias enquanto que adolescente estudava no colégio do governo e nunca passou de ano” (fls. 1597/1598).

Destarte, a partir desses depoimentos, o que ressai, em verdade, é a existência de um descompasso entre as mencionadas boas intenções afirmadas pelo acusado e o tratamento que efetivamente dispensou à menor durante esses quatro anos. E aqui destaco a percuciente percepção da Juíza de 1º Grau, que assevera: “o acusado não conseguiu explicar plausivelmente o porquê de trazer a vítima do interior do Estado para morar em sua casa, haja vista que, por lei, ela não poderia exercer trabalho doméstico e, pelo contexto dos autos, não estava recebendo a educação e cuidados que podia lhe proporcionar nem sendo tratada como uma pessoa de sua família” (fls. 1593/1594).

Ainda segundo a Juíza Singular, “a par disso, deve ser considerada a

tardia providência do acusado em legalizar a situação da menor. Somente quando quis levá-la a uma viagem ao Rio de Janeiro, afirma o próprio réu, é que ele procurou obter, judicialmente, a guarda provisória da criança” (fl. 1594).

Dessa forma, nos termos do art. 239 do Código de Processo Penal, a essas circunstâncias não há como negar o caráter de prova indiciária que, no presente feito, emana como mais um elemento a corroborar a palavra da vítima.Diante desse contexto probatório expressamente admitido e delineado na sentença e no acórdão recorrido, verifica-se que o Tribunal de origem incorreu em erro na valoração da prova, divergindo da jurisprudência deste Sodalício.

A Corte Local, nos termos do voto condutor, afirma que essa robusta conjuntura fático-probatória – palavra da vítima corroborada por parecer psicológico, laudos periciais, prova testemunhal e prova indiciária – não se mostra suficiente a ensejar um édito condenatório, mas, contraditoriamente, entende ter restado “inconteste, apenas e unicamente, o abuso que o pai das menores praticava contra as meninas” – fato que não constitui objeto do presente feito –com fundamento exclusivo no depoimento prestado pela irmã da vítima, quem aduz acreditar que a irmã tenha sido abusada pelo pai.

Consigne-se também que, de acordo com o material cognitivo admitido e utilizado pelas instâncias ordinárias, não há que se falar em momento exato dos abusos sexuais, como se se tratasse de eventos esporádicos. Pelo contrário, conforme laudo pericial alhures citado, há vestígios de violência sexual crônica e reiterada, no mesmo sentido do que relata a vítima, quando assevera que sofreu abusos por parte acusado desde o segundo dia que com ele passou a residir e que tais abusos duraram quatro anos, lapso durante o qual a menor esteve sob custódia exclusiva do recorrido. Portanto, suposta imprecisão temporal invocada pelo Tribunal de origem não tem o condão de suscitar dúvida in favor rei. Em suma, observa-se, no caso, que, ao contrário do que afirma o Tribunal a quo, as declarações prestadas pela vítima, firmes e coerentes, está em perfeita sintonia com as demais provas acostadas aos autos do processo e expressamente admitidas na sentença e no aresto vergastado, não havendo espaço, portanto, para a aplicação do brocardo in dubio pro reo.

Nesse sentido, cito julgado desta Quinta Turma:

PENAL. RECURSO ESPECIAL PELA ALÍNEA “C”.

ATENTADOS VIOLENTO AO PUDOR CONTRA DUAS ENTEADAS.

ABSOLVIÇÃO EM SEGUNDO GRAU. UTILIZAÇÃO DE

ARGUMENTOS INIDÔNEOS PELO TRIBUNAL A QUO. ERRO NA

APRECIAÇÃO DA PROVA. RELEVÂNCIA DA PALAVRA DAS

VÍTIMAS. REVALORAÇÃO. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL

COMPROVADO. RECURSO PROVIDO.

  1. O entendimento desta corte é no sentido de que nos

crimes sexuais, a palavra da vítima, desde que coerente com as

demais provas dos autos, tem grande validade como elemento de

convicção, sobretudo porque, em grande parte dos casos, tais delitos

são perpetrados às escondidas e podem não deixar vestígios.

  1. Assim, entendida como insuficiente pelo aresto

recorrido, a valoração da prova realizada pelo Tribunal a quo

utilizou-se de argumentos inidôneos, que infringiram o princípio

probatório atinente a quaestio, qual seja, a relevância da palavra das

vítimas nos crimes sexuais.

  1. Dessa forma, ao suscitar dúvida, quanto à harmônica

palavra das ofendidas, tal qual admitida e especificada pelo juízo

sentenciante, o Tribunal de Justiça recorrido incidiu em erro na

apreciação da prova, em flagrante divergência com o colacionado

aresto paradigma e com o entendimento desta Colenda Corte Nacional

sobre o assunto.

  1. Admissível o recurso especial pela alínea “c” quando

realizado o cotejo analítico e comprovada a similitude fática entre o

acórdão impugnado e o aresto trazido à colação, em atendimento aos

requisitos dos arts. 541, parágrafo único, do Código de Processo Civil

e 255, § 1º, “a”, e § 2º, do RISTJ.

  1. Recurso conhecido e provido.

(REsp 1336961/RN, Rel. Ministro CAMPOS MARQUES

(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/PR), QUINTA TURMA,

julgado em 21/05/2013, DJe 13/09/2013)

Condenação é restabelecida

Destarte, impõe-se o restabelecimento da condenação.

Diante do exposto, com fundamento no Enunciado n. 568 da Súmula do STJ, dou provimento ao recurso especial, para restabelecer a sentença condenatória e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que prossiga no julgamento dos demais pedidos formulados em sede de apelação.

Publique-se. Intimem-se.

Brasília, 09 de março de 2018.

MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK

Relator

Documento: 81270955 – Despacho / Decisão – Site certificado – DJe: 23/03/2018 P

Terça, 03 Abril 2018 11:53

O golpe dosR$ 3,3 bilhões

Escrito por

O procurador geral de justiça do Pará, Gilberto Martins, pediu à justiça a cassação das aposentadorias das desembargadoras Marneide Merabet e Vera Araújo de Souza. Elas foram punidas pelo Conselho Nacional de Justiça com a pena máxima prevista no âmbito da magistratura, de aposentadoria compulsória, com direito a vencimento proporcional ao tempo de serviço. Como tinham longa carreira, foram para casa com direito a cerca de 34 mil reais por mês.

Tudo estava errado nessa história. O CNJ puniu as duas magistradas por negligência e ponto final. Como se pode considerar ser ato de negligência o que ambas – Vera Araújo de Souza quando ainda era juíza de 1º grau (foi promovida por merecimento ao posto mais alto da carreira em seguida), e Marneide Merabet, já desembargadora, no julgamento recursal – autorizaram que um cidadão sacasse 2,3 bilhões de reais (R$ 3,3 bilhões atuais) de oito contas individuais, nas quais o dinheiro teria permanecido parado durante cinco anos, com base numa esdrúxula ação de usucapião, exposta em quatro singelas laudas e com dois extratos bancários como prova, todos os documentos com aparência suspeita?

Foi uma decisão de rápida lavra e rápida execução. As duas magistradas não atentaram para o valor da demanda, equivalente a um terço do lucro do maior banco do país, capaz de abalar a economia nacional. Uma despachou de pronto e outra confirmou a inacreditável decisão de imediato, contra todas as provas que o banco lhes apresentou, de que se tratava de um golpe fraudulento que os seus autores haviam tentado aplicar em outras praças. Só tiveram sucesso em Belém.

Além da cassação das aposentadorias ilegitimamente usufruídas, espera-se que também seja feita uma apuração mais rigorosa dos fatos. Mais do que negligência, tudo indica que o erro foi cometido de má fé. Se foi por corrupção ou não, uma adequada e competente instrução na ação civil pública proposta pelo chefe do MP estadual é que deverá responder. O que não pode acontecer é se colocar uma pedra tumular sobre esse caso incrível, sem se considerar a sua face criminal.

Terça, 03 Abril 2018 11:50

Caso Sefer: a trilha processual

Escrito por

A trajetória processual da ação proposta contra o deputado estadual Luiz Afonso Sefer é complicada, embora regular. Essa tortuosidade decorre da própria lei processual, que prima pela complexidade, com isso favorecendo os criminosos. Costuma abrir-lhes o caminho da impunidade através da prescrição, com o esgotamento do prazo para a sobrevida do processo.

Contra o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado, que absolveu o parlamentar do crime de abuso sexual de menor, com pena de 21 anos de prisão estabelecido pelo juízo singular, o Ministério Público do Estado interpôs recurso especial. O próprio tribunal negou seguimento ao recurso.

Diante dessa decisão o MPE apresentou outro recurso, um agravo de instrumento, diretamente ao tribunal. O relator do processo no Superior Tribunal de Justiça rejeitou (monocraticamente, isto é, em decisão individual) o agravo. Entendeu que o que cabia era dar prosseguimento ao recurso especial.

Mas ao julgar o recurso especial, o órgão colegiado do STJ entendeu que o agravo de instrumento fora interposto intempestivamente, fora do prazo. Por isso, manteve a decisão que negara seguimento ao recurso especial u seja, manteve a absolvição de Sefer.

Desta decisão o Ministério Público Federal protocolou novo recurso, sob a alegação de que não se poderia ter apreciado de ofício (sem provocação da parte contrária) a questão da intempestividade do agravo de instrumento. O MPF tomou a iniciativa porque, embora o processo seja estadual em sua origem, o MPF através da Procuradoria Geral da República – é quem oficiar em nome do MP brasileiro perante o STJ e STF. Era, portanto, parte legítima para recorrer de qualquer decisão tomada no âmbito do STJ.

Somente a partir dessa última decisão é que o mérito do recurso especial pôde ser apreciado, tendo o STJ, no mérito, concluído pelo erro da decisão do Tribunal de Justiça do Pará e restabelecido a sentença condenatória.

Segunda, 02 Abril 2018 11:49

Caso Sefer: quem recorreu?

Escrito por

Quem apresentou o recurso especial contra a absolvição do deputado estadual Luiz Afonso Sefer? Esse recurso levou o seu relator, o ministro Joel Ilan Paciornik, da 5ª turma do Superior Tribunal de Justiça, a revogar a decisão do Tribunal de Justiça do Pará e manter a condenação do parlamentar a 21 anos de prisão, por abuso sexual de menor.

A primeira informação era de que o procurador de justiça Marcos Antônio Neves, ex-chefe do Ministério Público do Estado, fora o autor do recurso. Leitores anônimos do blog do jornalista Carlos Mendes, porém, apresentaram duas hipóteses.

A primeira foi de que o recurso interposto no STJ, foi apresentado pelo Ministério Público Federal, porque o MP estadual perdeu o prazo e teve seu recurso rejeitado, pela sua intempestividade.

Outro leitor, igualmente anônimo, comentou que, na verdade, quem recorreu foi o assistente de acusação, “porque de fato o MPE perdeu o prazo”.

Alguém poderia esclarecer a questão?

Segunda, 02 Abril 2018 11:45

STJ julga Jatene na quarta

Escrito por

Nesta quarta-feira, 4, a corte especial do Superior Tribunal de Justiça decidirá sobre o recebimento de denúncia contra o governador Simão Jatene, acusado de corrupção passiva, supostamente cometida antes de ser governador, em 2002, segundo notícia publicada agora por Frederico Vasconcelos, no blog da Folha de S. Paulo. O governador teria solicitado vantagens envolvendo em troca do perdão de dívidas tributárias da Cerpasa (Cervejaria Paraense S.A.).

O jornalista informa que o prosseguimento da ação penal decorre de julgamento pela corte especial em junho de 2017, “quando prevaleceu o voto da ministra Maria Thereza de Assis Moura, que não reconheceu a extinção da punibilidade pela prescrição”.

Em outubro de 2017, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, negou liminar em habeas corpus por meio do qual a defesa do governador pedia para suspender o processo no STJ. Fux não verificou um dos requisitos para a concessão da medida cautelar: a plausibilidade jurídico do pedido (o fumus boni iuris, ou a “fumaça do bom direito”).

Para a defesa de Jatene, o suposto crime denunciado pelo Ministério Público Federal ocorreu em setembro de 2002. Com a aplicação do prazo prescricional, a extinção da punibilidade teria ocorrido em setembro de 2014.

O então relator do caso no STJ, ministro Napoleão Maia, reconheceu monocraticamente a prescrição da pretensão punitiva.

Em exame de agravo regimental, no entanto, o STJ entendeu que o suposto crime teve continuação em 2003, quando Jatene, ao assumir o governo, teria repactuado a proposta original para que o pagamento das vantagens indevidas fosse feito em parcelas.

“Com isso, e levando em conta outros aspectos para a definição da prescrição, como a incidência de causa de aumento da pena referente a ocupação de função pública, o STJ afastou a prescrição e manteve a tramitação do processo para posterior análise do recebimento da denúncia”.

Domingo, 01 Abril 2018 11:00

Acredite: isto é Brasil!

Escrito por

Dez amigos íntimos ou ex-assessores do presidente Michel Temer, além de empresários suspeitos de participar de um esquema de corrupção no porto de Santos, foram presos no dia 29´(outros três estavam viajando pelo exterior; ainda não voltaram). O prazo de validade da prisão temporária era de cinco dias. Bastaram três dias, no entanto, para que os policiais e membros do Ministério Público Federal se satisfazerem com os interrogatórios. Já tinham as informações que buscavam?

Aparentemente, sim. Num raro gesto de fidalguia ou pragmatismo para os padrões da caça aos corruptos, a procuradora geral da república Raquel Dodge pediu e o justiceiro ministro Luiz Roberto Barroso a atendeu, de imediato, sem qualquer pitada de psicopatia. Deu ordem de soltura para que os até então presos possam comemorar em suas luxuosas residências seus sofisticados ovos de páscoa.

Um detalhe tisnou esse nobre enredo previamente concertado (ou seria consertado?): o coronel Lima (será codinome?) sequer foi ouvido. O coronel, tido por sócio informal do presidente numa camuflada agência de distribuição de dinheiro de origem incerta e não sabido para destinos conhecidos e esquecidos, sequer foi ouvido. Sua figura é singular: ele é o mais falado dos personagens criminais desta novela. Mas é o único que nunca falou. Por três vezes não compareceu a audiências marcadas para interrogá-lo na justiça porque estaria doente e “sem condições psicológicas” para falar (quem está em condições psicológicas de ir à justiça como réu ou sofrer ameaça de ser preso? Quem estiver, levante as mãos).

O vulto bem posto de imagens anteriores veiculadas pela imprensa foi substituído, ao descer preso do seu luxuoso apartamento em São Paulo, por um ser abatido, quase moribundo, como um novo Duciomar Costa, que trafegou em cadeira de rodas da residência para uma ambulância e, nela, para um caro hospital particular. Cadeira de rodas parece ter se tornado o must da atual fase de caça aos corruptos, deixando em segundo plano a coqueluche de antes, as esbeltas tornozeleiras eletrônicas.

Se a razão do pedido de soltura e da sua concessão de bate-pronto pelo ministro campeão da consciência de justiça no STF foi que os presos já haviam dito tudo que podiam dizer, como estender a ordem de libertação estendida ao coronel da reserva da Polícia Militar, que nada disse nem lhe pôde ser perguntado?

Ao que parece, o rolo do filme da Lava-Jato está sendo rebobinado para ser substituído por uma nova fita (em seu significado simbólico popular, de “fazer fita”). Maluf, também em cadeira de rodas, já está em sua luxuosa mansão no Jardim América, em São Paulo.  O deputado estadual Jorge Piciani, da máfia carioca, que está destruindo a Cidade Maravilhosa, foi solto. Demóstenes Torres vai poder se candidatar outra vez. Liberalidades praticadas, por mero “humanitarismo”, em canetadas seguidas, pelo ministro Dias Toffoli, que será o próximo presidente da mais alta cote da justiça brasileira, em substituição à dubidativa Cármen Lúcia, bloqueada por uma pedra no caminho de Minas. Toffoli, advogado particular de Lula antes de ser indicado plo PT para o excelso pretório, levou bomba em dois concursos para juiz de 1º grau.

Como diria o bardo prêmio Nobel de literatura Bob Dylan, “the times, they are a changing”. Melhor manter o inglês para não baixar ainda mais o astral. Afinal, como logo veremos, as robustas provas produzidas nos três dias de interrogatório irão desmascarar a rede de corrupção no porto de Santos, farão todos os seus integrantes voltar à prisão, levarão à terceira e definitiva denúncia contra Temer no Congresso e descerão mais alguns degraus no lodaçal que cobre este gigante pela própria natureza, impedindo-o de acreditar que o que brilha lá em cima é o sol, não a espada de Dâmocles.

Terça, 29 Maio 2018 10:51

Pessoal do Ministério Público

Escrito por

A despesa bruta do Ministério Público do Estado com pessoal foi de pouco mais de 481 milhões de reais no intervalo de um ano, entre maio de 2017 e abril deste ano, sendo R$ 400 milhões com pessoal ativo e R$ 81 milhões com inativos.  O gasto líquido foi de R$ 341 milhões, que está acima do limite de alerta estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que é de R$ 329 milhões, segundo os dados das demonstrações feitas pelo MPE.

Os dados, publicados no Diário Oficial de ontem, deveriam ser exibidos de forma mais clara e correta. Na apresentação atual, criam certa confusão na leitura. O órgão ministerial também deveria divulgar a quantidade de pessoal na ativa e na inatividade. Informaria mais o distinto público, que paga a conta.

Quadro

O MPE possui 2.125 servidores, dos quais 1.877 são do serviço ativo, sendo 348 de nível superior: 29 procuradores de justiça e 319 promotores. O salário médio de um procurador é de R$ 30 mil. Dados divulgados em edição anterior do Diário Oficial.