Cidades

Cidades (129)

Segunda, 11 Março 2019 10:41

Pobre São Paulo

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A maior cidade do Brasil e da América do Sul, das maiores do mundo, amanheceu num dilúvio. Grandes enchentes se tornaram uma rotina trágica em São Paulo. Mesmo quem a visita nos verões dos últimos anos fica sobressaltado pelo volume das chuvas e o agravamento das inundações. Quem possui um elo mais forte com a cidade, mesmo ao escapar às tragédias anunciadas, deixa São Paulo com um nó na garganta. E o morador da capital paulista, como fica? Como fica, principalmente, o morador com menor acesso a recursos para enfrentar o crescimento súbito do nível das águas?

Pensa-se logo no aquecimento global, que estaria provocando a elevação constante do nível das águas. Mas se deve pensar também na monstruosidade que se formou em São Paulo pela omissão das autoridades urbanas. Só este fator, que está acima de qualquer questionamento, é suficiente para concluir que São Paulo caminha celeremente para o colapso. As ações remediadoras e mitigadoras se tornaram inócuas. Para escapar de tragédias cada vez mais frequentes, São Paulo precisa de uma intervenção cirúrgica para combater o que vemos pela televisão neste momento: cenas de destruição tão cruel que, acumuladas nas últimas semanas, o dia seguinte será uma antecipação do apocalipse.

Quarta, 13 Fevereiro 2019 19:16

A imunidade dos ônibus

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O Jornal Liberal 1ª edição de hoje flagrou um ônibus avançando com o sinal vermelho numa rua de Belém. A cena é comum e numerosa. O motorista paraense em geral desrespeita as leis do trânsito. Mas a desenvoltura dos que conduzem ônibus é espantosa, em particular com o avanço do sinal.

A infração acarreta multa de 293 reais e sete pontos na carteira. Mas os empregados das empresas privadas de transporte público parecem imunes à punição. Se ela fosse aplicada, todo mês os motoristas de coletivos teriam que pagar pesadas multas e estariam sujeitos à perda da habilitação.

Isso acontece? Com a palavra, a Semob, responsável pela mobilidade urbana na administração municipal.

Segunda, 11 Fevereiro 2019 10:07

A humanidade

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Quase oito horas da manhã. Uma dessas caminhonetes enormes, preta, película forte, sai da garagem do Peteleco, improvisada e insuficiente para atender a demanda de veículos que a procuram, fonte de congestionamento em boa parte do bairro do Reduto (em parceria com o inconveniente shopping Boulevard), sob a complacência diária da Semob. O carro sai como um bólido. Quase me atropela, embora eu estivesse na calçada, suposto domínio dos pedestres. O motorista apressado e mal educado segue, indiferente aos meus protestos. Será um bom pai?

Pouco depois, na esquina em que a João Balbi termina na Quintino, outro veículo do mesmo tipo, preferido por 11 entre 10 integrantes da classe média - afluente ou defluente. Paro, sinalizo para que ele vá em frente (afinal, a rua é o domínio dos carros). Mesmo atrás do vidro peliculado, que o torna invisível (e é habeas corpus para as incivilidades e abusos), ele faz questão que eu prossiga. enquanto ele aguarda, mesmo com o cruzamento temporariamente livre para ele. Chego ao outro lado da rua e agradeço pela gentileza.

Assim caminha a humanidade.

Sexta, 08 Fevereiro 2019 11:36

Rio: no fim

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Entre Veneza, São Francisco, Nápoles e Rio de Janeiro, as mais belas cidades que conheci na minha vida (todas litorâneas), não por patriotada, sempre considerei o Rio de Janeiro a mais bonita de todas. Visitei-a logo depois que ela perdeu a condição de capital federal e nela morei quando ela ainda era realmente maravilhosa. Acho que em nenhum outro lugar do planeta se vivia melhor do que na zona sul da cidade, entre os anos 1950/60.

Desde Brasília, em 1960, o Brasil tem maltratado o Rio. De miragem de ideal, a cidade, deixada no vácuo resultante da perda da condição de capital nacional, foi sendo ocupada por linhagens criminosas, algumas usando mandato eletivo como arma e outras, as mais audaciosas e, hoje, as mais poderosas, um fuzil. Em três dias, o Rio sofreu uma tormenta natural, a morte de 10 jovens atletas numa caixa de metal que pegou fogo e 13 pessoas mortas num tiroteio.

O Rio que a natureza pródiga concedeu aos brasileiros está no fim. Por culpa dos brasileiros.

Sábado, 19 Janeiro 2019 19:32

O Mangueirão, a água e a urina

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A água é a responsável pela deterioração física do Mangueirão. A água doce das chuvas, sabidamente intensas na capital paraense. E a água salgada da bexiga dos torcedores, que urinam ali mesmo, na arquibancada, ao invés de procurar os banheiros do estádio de futebol. 

O Mangueirão completou quatro décadas de funcionamento no ano passado. É tempo suficiente para seus  dirigentes enfrentarem e resolverem o problema hidráulico da natureza e urinário dos homens, nem tão grave assim. Mas os responsáveis pela manutenção da propriedade estadual parecem ter preferido fazer cara de paisagem e olhar para muito além da chamada praça de esportes.

Os engenheiros transmitiram o diagnóstico ao governador e Helder Barbalho repassou o recado para a opinião pública: no dia 27 (ou 30), metade do estádio, considerada saudável, estará disponível para o início do campeonato paraense. A metade considerada insegura deverá receber obras de recuperação para tratar da água que cai do céu. Os mijadores compulsivos terão à sua disposição banheiros químicos.

Bola pro alto que é jogo de campeonato. Com um olho na bola e outra no concreto, é claro.

Sexta, 19 Janeiro 2018 15:29

A história na chapa quente (348)

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(Publicado no Jornal Pessoal 330, de setembro de 2004)

ELEIÇÃO

A caravana vai passar

 

Dois terços das famílias que moram em Belém vivem com uma renda que varia entre 0 e 5 salários mínimos. Os 25% mais ricos ficam com 55% da renda do município. Para os 25% mais pobres sobram apenas 10% da renda total. A renda per capita dos moradores da cidade representa dois terços da média brasileira.

Segunda mais importante capital do Brasil no começo do século XX, Belém se tornou uma das mais pobres do país neste princípio de século XXI. Nos 1900, seu habitante dispunha de bonde elétrico, iluminação pública a gás, rede de esgoto e outros confortos aos quais poucas cidades brasileiras tinham acesso, além de pleno emprego.

Hoje, o caminho do futuro é muito mais complexo. Quem circula por outras capitais volta com a impressão de que Belém está marcando passo, quando não retrocedendo.

Muitos visitantes, porém, se dizem impressionados com a capital paraense. Essa boa impressão tem uma explicação: o brasileiro não conhece seu país; para ele, a Amazônia está em outro mundo – e esteve mesmo, durante todo o período colonial e boa parte do Império.

Importância estratégica perdida

A boa surpresa é um produto de dois ciclos de investimentos urbanos maciços, que a historiografia nacional do centro dominante praticamente ignora: o período pombalino (comandado pelo déspota esclarecido de Portugal, o marquês de Pombal), na segunda metade do século XVIII, e o meio século de fastígio proporcionado pela exploração da borracha, entre 1860 e 1912, com seu apogeu sob a intendência de Antônio Lemos, um maranhense até hoje tido como o melhor prefeito que Belém já teve.

No primeiro momento, Belém foi preparada para ser a capital do reino português remanescente na América, quando o Brasil se tornasse independente. No segundo momento, se tornaria a mais cosmopolita das metrópoles brasileiras, renovando relações diretas com as metrópoles mundiais.

É por isso que a cidade oferece o espetáculo de uma afluência – ao mesmo tempo internacionalista e localizada – para o qual o visitante não está preparado, vítima de preconceitos e mal-entendidos que remontam ao passado e se mantêm, renovados, no presente.

Mas fora do quadrilátero urbano criado pelo plano pombalino e pela exploração monopolista da borracha (e já se infiltrando nesse reduto de beleza e conforto, à margem das baixadas), o que caracteriza Belém são as marcas de um empobrecimento africano convivendo, conflituosamente, com ilhas de riqueza.

Talvez Belém seja a capital com a maior economia invisível do Brasil. De cada três pessoas que trabalham na cidade, apenas uma tem carteira assinada. Cada pessoa que trabalha sustenta três pessoas que não trabalham, embora em idade produtiva.

Mesmo sem uma quantificação da realidade, ninguém cometerá impropriedade se disser que nenhuma metrópole brasileira tem tantos camelôs quanto Belém. Somados a flanelinhas, biscateiros em geral e outros trabalhadores temporários, esse exército de lumpen proletários, como se dizia antigamente, supera o contingente de mão de obra regular.

O que agrava o problema é a visão que dele o governo tem. Uma anomalia patológica passou a ser considerada natural e, em casos extremos, desejável. A economia informal se espalha como um vírus, que se alimenta de remédios mal receitados ou aplicados sem controle, aumentando sua resistência.

O domínio do caos

Quem percorrer a futura “via dos mercadores”, um projeto da administração Edmilson Rodrigues que, a despeito de seus erros e atrasos, se transformou num abre-alas eleitoral, poderá antever o conflito que eclodirá quando a prefeitura for ordenar a ocupação do calçadão ondulante para que a beleza da rua não seja comprometida e o bondinho possa circular.

No conjunto João Alfredo-Santo Antônio há, atualmente, uma quantidade muito maior de camelôs do que os pontos fixados na calçada para abrigar apenas os vendedores autorizados os únicos que irão permanecer no local. O que acontecerá quando chegar a hora de disciplinar o uso do espaço?

Há vários anos nada se fez de inteligente e objetivo para conter e fazer retroceder essa onda de atividade marginal (ou lateral), reprimindo-a mas, ao mesmo tempo, oferecendo melhores alternativas de trabalho às pessoas envolvidas nessa atividade.

Pelo contrário: por oportunismo ou má-fé, as políticas públicas acabaram por estimular ou induzir essa ameba urbana, que se beneficia do meio-tom e da sombra, que constitui sua cultura. Já há gerações de camelôs e famílias de trabalhadores informais. Eles cresceram nesse universo e esperam estabelecer nele sua sucessão. O que era anomalia tornou-se normalidade.

Quando a margem legal e legítima é esticada e desdobrada para abrigar e acomodar situações que a contrariam ou desafiam, uma teia de negócios e interesses ocultos começa a ser tecida sem que se possa prever até onde ela se prolongará.

Pais de família sérios e trabalhadores ou jovens aplicados, independentemente do que fizerem, estarão servindo de instrumento para sonegação fiscal, desvio de dinheiro, legitimação de atividades ilícitas, comércio irregular, contrabando, receptação e outras contravenções que, uma vez consolidadas, acabam resultando em problemas gigantescos, como o crime organizado. Belém, nesse ponto, se parece cada vez mais ao Rio de Janeiro.

A economia paralela

Esse rio subterrâneo de dinheiro, emergindo em alguns pontos, é que move a cidade, mais do que a atividade econômica explícita e legal. A fachada é enorme, mas atrás dela há cômodos miseráveis. Daí se falar tanto na lavagem de dinheiro na cidade, ou de negócios de fachada.

Em parte, eles explicam certos investimentos que são feitos sem a existência de um mercado visível que os justifique, ou exibições de riqueza sem a correspondente demonstração da renda que as sustente. O que corre “por fora” representa uma demanda reprimida por esses serviços, o que tornou Belém uma cidade terciária tardia – ou equivocada.

Mas não só isso. Belém concentrou o investimento urbano ao longo da história do Pará. Quase todas as cidades do interior, presas ao extrativismo vegetal, eram (ou continuam a ser) pouco mais do que acampamentos de transbordo dos produtos que vinham (e ainda vêm) do hinterland em busca do porto exportador litorâneo, nos quais eram (e são) embarcados para o exterior.

A cidade europeia em que se transformou a capital do Estado na belle époque contrastava (e ainda contrasta) com todas as outras cidades interioranas, havendo entre elas um vácuo abissal. Não só ontem, como até hoje. Basta pensar num único fato: nenhuma das demais cidades fora da região metropolitana, mesmo aquelas que já bateram em 200 mil habitantes, conta com um serviço de UTI em seus hospitais. Pacientes em estado grave têm que buscar auxílio na capital.

Essa circunstância alimenta o contraste entre a face africana de Belém e seu perfil europeu, que encanta o visitante mais atento ao imediato, ainda que mal informado sobre os antecedentes na história. Se o turista pode apreciar a beleza arquitetônica instalada debaixo da cobertura das mangueiras, indo a bairros novos da periferia vai sofrer uma inclemência de deserto sob uma paisagem humana de conflagração social.

A atividade vanguardista, em escritórios bem montados, é vizinha de práticas medievais nas invasões: seres humanos substituindo a tração animal em carroças empregadas ao longo da Estrada Nova, ou queimando madeira no Aurá para fazer carvão vegetal.

Novos hotéis brotam em ruas arborizadas, inclusive sob bandeiras universais (como a do Holliday-Inn), enquanto verdadeiras estalagens da época anterior à revolução industrial irrompem nos subúrbios para acomodar gente como se fosse gado.

Para onde vai?

Para onde irá Belém nesse choque de contrastes aparentemente doidivanas? Uma resposta convincente não está sendo oferecida pela atual temporada eleitoral. Candidatos que não têm a menor responsabilidade para com suas biografias, que por isso ocultam ou maquiam, nem seu discurso tem compromisso com a verdade, dizem o que querem, sem tocar no que devem, indiferentes ao distinto público, que, como papel em branco, tudo aceita.

Consultando os currículos dos candidatos e analisando o que, um tanto toscamente, se pode chamar de seus “programas”, chega-se a uma triste conclusão: a primeira década do século XXI está perdida para Belém. Como as décadas anteriores. Perdida no sentido de que continuará discriminatória, segregacionista, desligada do seu contexto regional.

A rigor, a condição da capital dos paraenses só não é mais grave porque, por inércia, ela continua a usufruir o centralismo espacial dos séculos anteriores. Boa parte dos investimentos que nela são feitos, criando a ilusão de progresso, deve-se a essa polarização. O dinheiro segue para ela porque não há outra alternativa. Ao menos enquanto os espasmos e contrações separatistas continuarem episódicos, desarticulados e inconsequentes.

Quando os impulsos emancipacionistas tiverem consequência e desencadearem a desconcentração espacial do poder, Belém vai gemer como se fizesse parte daquela famosa crônica de Rubem Braga, “ai de ti, Copacabana”, que antecipou a decadência da “princesinha do mar” depois da transferência da capital federal para Brasília.

Belém não geme porque não quer – ou não pode – pensar no futuro e planejá-lo, tendo que vender o almoço para comprar o jantar. Ter que decidir entre um falso médico, apoiado por um médico verdadeiro, mas escapista, e a sucessora de Edmilson Rodrigues, que tenta se dissociar do correligionário sem distanciar-se dele.

Bem que esse podia ser o título verdadeiro da atual campanha eleitoral: “ai de ti, Belém”. Quem ganhe, perderás.

Quinta, 18 Janeiro 2018 15:28

Lixão: réus ausentes?

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O Ministério Público do Estado do Pará ajuizou a quarta ação contra as empresas que operam o aterro sanitário de Marituba. A promotora Marcela Christine Ferreira de Mello denunciou quatro empresas e 10 pessoas por má administração do tratamento dos resíduos no local.

Com base em denúncia anterior, o MP estadual e a polícia civil realizaram em conjunto a Operação Gramacho, em dezembro do ano passado, que resultou na prisão de dois diretores e um funcionário da Guamá Tratamento de Resíduos, controlada pela multinacional italiana Slvi, através do seu braço no Brasil, a Revita.

Na ação, os denunciados são acusados de praticar o armazenamento, a guarda, o depósito e o processamento dos resíduos sólidos em desacordo com as normas legais e regulamentares, deixando-os descobertos, expostos, causando poluição atmosférica, com emissão de odores e gases.

Esta última ação, como as três anteriores, se baseiam no inquérito policial civil instaurado em 13 de março de 2017 pela Divisão Especializada em Meio Ambiente. O relatório policial concluiu que os denunciados praticara “diversos e reiterados ilícitos ambientais graves, à frente da gestão de resíduos sólidos urbanos da região metropolitana de Belém, por meio da Central de Processamento, gerenciada pela Guamá Ltda”.

Segundo a investigação, por não disporem de mais lagoas para armazenamento de chorume, as empresas responsáveis pela gestão do lixão “despejaram o líquido bruto no solo, sem impermeabilização, conduzindo os poluentes diretamente para o Igarapé Pau Grande, situado em grande parte no interior do Refúgio da Vida Silvestre, unidade de conservação de proteção integral em Marituba”.

Por isso, os indiciados deveriam ser responsabilizados “por crimes de poluição atmosférica, poluição hídrica, construção de obras potencialmente poluidores sem licença ambiental, deixar a quem tem o dever legal ou contratual de fazê-lo, de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental e elaborar no licenciamento, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso.

A Guamá reagiu às acusações reiterando que “vem prestando todos os esclarecimentos necessários à adequada condução do processo legal”, além de negar “que tenha havido crime ambiental no aterro sanitário de Marituba”. Lembrou que possui “as devidas licenças ambientais para operar o aterro, que está dentro do padrão operacional de excelência e em conformidade com as melhores práticas do setor”.

Acentuou na nota que “atua sob fiscalização permanente” da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado desde o início das suas atividades e, desde abril do ano passado, “opera em um modelo de cogestão com interventores nomeados pelo Poder Judiciário que atuam dentro do aterro e que podem atestar a boa situação da operação atual”.

Esse regime foi instalado na gestão do aterro no mês seguinte à instauração do inquérito da polícia civil, cujo relatório, provas e documentos anexos tem se baseado o Ministério Público para fazer suas denúncias, acolhidas pela justiça estadual.

Desde então deixou e haver irregularidades? É por este motivo que nenhum dos interventores foi incluído nas ordens de prisão? Nenhum deles foi indiciado? Nenhum foi investigado? Novas fiscalizações atestaram que a partir da intervenção estatal não houve mais as falhas e vícios apontados, quando a responsabilidade era exclusiva da empresa?

Estas perguntas precisam de respostas para não manter e reforçar a impressão de que a apuração dos crimes e dos seus autores tem um roteiro previamente fixado, no qual os funcionários do governo com atuação no aterro, e também do MP estadual, não entram. Pode parecer que se está criando um bode que, além de expiatório, é fedorento.

Quinta, 18 Janeiro 2018 15:23

Com chapéu alheio

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A condenada passarela do quilômetro 3 da BR-316, que só está em uso por pedestres graças a um guindaste, que a sustenta há um mês (ao custo, até agora, de 30 mil reais, a serem pagos – sem licitação, por ser obra de urgência – pela Secretaria de Transportes do Estado), fica a menos de 300 metros de uma nova passarela. É a prefeitura de Ananindeua quem a constrói. Mas não para atender preferencialmente os cidadãos. É para permitir um acesso direto ao novo shopping da região metropolitana, que, evidentemente, é da iniciativa privada.

Logo a seguir existe um semáforo e uma faixa, por onde os pedestres atravessam a perigosa rodovia Mário Covas, que leva (e traz) à Cidade Nova. Esse dispositivo tem sido suficiente para atender a demanda da população. Era a única maneira de atravessar a rua até o surgimento do shopping Metrópole. Manoel Pioneiro repete, com esse estabelecimento comercial, a mesma cortesia deferida ao shopping Castanheira por Duciomar Costa. A gentileza do ex-prefeito custou R$ 7 milhões. E a de Pioneiro?

Quinta, 18 Janeiro 2018 15:19

Debate ao vento

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A prefeitura de Belém aguardará pela manifestação do povo até o dia 30. Depois desse dia, lançará o edital para a realização da primeira concorrência pública para a concessão do “Novo Sistema de Transporte Coletivo da capital paraense”.  A contagem regressiva para uma decisão que interessa diretamente a 750 mil pessoas, ou metade da população da cidade, começou a contar no dia 16, com a realização da primeira – e única – audiência pública.

 

A audiência foi realizada no auditório do Ministério Público do Estado. O local tem capacidade para 150 pessoas, mas não muito mais do que metade delas foram ocupadas, ao que se suspeita, em boa parte por servidores públicos municipais ou suas extensões. Um dos pontos do debate foi a reivindicação por debates nos bairros, reivindicação considerada justa, mas não endossada pelas autoridades.

 

O serviço de transporte em uso em Belém é operado por meio de ordens de serviço, sistema notoriamente frágil, tanto do ponto de vista jurídico e técnico quanto político. O poder das 14 empresas de ônibus é tal que elas costumam ignorar os limites legais em relação aos usuários, por serem uma das principais fontes de financiamento das campanhas eleitorais.

 

Segundo a EGL Engenharia, a frota operacional é composta de 1.350 ônibus, que circulam em127 linhas, operadas por 14 empresas, e mais 400 vans e micro-ônibus. A receita bruta seria de 450 milhões de reais ao ano, valor que surpreende (a expectativa é de bem mais).A empresa não informou sobre o número de viagens.

 

O objetivo da “é a regularização da situação contratual do setor e uma efetiva melhoria das condições das viagens, com otimização dos serviços e modernização, por meio da bilhetagem eletrônica integrada”, num prazo estimado de dois anos.

 

A prefeitura espera que os interessados em participar da licitação para os ônibus comuns se agrupem em dois lotes e, para o BRT, em um único. O contrato terá prazo mínimo de seis meses, com possibilidade de renovação por igual período. Esse tempo permitirá aos empresários “uma segurança de investimentos; a transição gradual das linhas; a eliminação ou fusão de linhas sobrepostas; a incorporação da manutenção de terminais e estações como parte do objeto da licitação, que é de responsabilidade dos concessionários; e a implantação gradativa de frota de veículos equipados com ar condicionado”.

 

Este item, absolutamente novo, terá a mesma gradação. Nos dois primeiros anos as empresas poderão instalar a refrigeração em 20% da sua frota. A partir daí, a adição será de 5% ao ano. Ou seja, os passageiros só contarão com o ar condicionado em todos os veículos em 16 anos, quando já estará vencido o prazo de duração do segundo contrato, se ele for prorrogado.

 

Como se trata da maior mudança já promovida no precário transporte coletivo de Belém, na dinâmica do cronograma apertado, o mais provável é que o povo só saiba o que é o novo sistema quando os fatos já estiverem consumados.

Sábado, 13 Janeiro 2018 15:00

Passarelas

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Duciomar Costa gastou sete milhões e reais para construir uma passarela sofisticada (mas já deteriorada) de acesso ao shopping Castanheira,  na BR-316, inclusive com escadas rolantes (hoje sem funcionamento). O governo do Estado não chegará a tanto em relação ao mais novo shopping da região, o Metrópole, em Ananindeua. Mas amanha começará a instalar uma passarela exclusiva em favor do estabelecimento comercial privado.

Tão surpreendente é a localização de uma das extremidades da passarela, ao lado de onde está uma dependência dos Correios, onde antes funcionava uma revenda de carro, que não é frequentada por pedestres. O mais lógico, dentro dessa irracionalidade de o poder público investir em favor de um negócio particular, seria a ligação pelo leito da BR, não por uma lateral deslocada do fluxo principal.

Enquanto isso, o cidadão continua a trafegar por uma passarela, a do km 3, que só não desabou por ser sustentada por um guindaste, à razão de mil reais ao dia, até que a nova estrutura esteja pronta, dentro de um mês – ou mais.

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