Cultura

Cultura (166)

Segunda, 13 Maio 2019 11:14

O paraense Lúcio Mauro

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Cabe ao ator Lúcio Mauro a definição: ele foi o maior papel que desempenhou ao longo de sua longa vida, de 92 anos, encerrada na noite de sábado, no Rio de Janeiro. Deixou de morar no Pará quando tinha 17 anos, mas levou na alma seu Estado natal. Manteve-se até o fim dos seus dias como um dos mais típicos paraenses: no modo de falar, no sotaque, no jeito bonachão, alegre e camarada de viver, na forma escrachada de fazer humor, se expressando por gestos e expressões, insinuando tanto quanto dizendo, da esperteza de malando belenense (tão tipológico quanto o carioca), ao som de um merengue caboclo-caribenho em festa de subúrbio (de preferência, no Guamá ou no Jurunas). Nunca abandonou a sua cultura de origem. Nem por modismo, espírito colonial ou covardia. Simples e popular, essas marcas escondiam o grande artista que ele foi, a companhia agradável e prazerosa que proporcionou a todos que ele se aproximaram.

Merecia um obituário muito melhor do que o que a imprensa paraense lhe dedicou, falha lamentável que diz muito sobre a qualidade da imprensa grande local (que já foi grande imprensa). Inacreditável, na matéria do Diário do Pará de hoje, a omissão ao fato de que Lúcio era irmão de Laércio Barbalho, pai de Jader Barbalho e tio-avô de Helder Barbalho. Os dois fizeram pálida referência ao tio em seus Faces. O jornal simplesmente ignorou um aspecto importante da biografia de Lúcio Mauro. Um dos seus personagens, o Da Júlia, foi a maior das muitas referências que fez à dona Júlia, sua mãe, que o acompanhou até a morte, como o Pará que amou, não este em que vivemos, cada vez mais aguado e sem fibra.

Sexta, 03 Maio 2019 19:16

Um mundo na Ásia

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A população dos 193 países do mundo soma 7,7 bilhões de pessoas. Apenas 12 têm mais de 100 milhões de habitantes cada. Em conjunto, concentram 4,6 bilhões de almas, como se dizia antigamente. Dá uma média de 400 milhões de habitantes por país, mas só na China (1,4 bilhão) e Índia (1,33 bilhão) se acotovela a esmagadora maioria. Os restantes 3,1 bilhões de seres humanos se distribuem por 183 países, com a média de menos de 17 milhões de habitantes per capita.

Das 12 nações mais populosas, sete se localizam na Ásia, com 3,6 bilhões de habitantes (quase metade de todos os terráqueos), três nas Américas (660 milhões), uma na África e apenas uma na Europa (se assim se considera a Rússia). O Brasil, que tem o quinto maior território do planeta, é também o quinto em população, com 209 milhões de habitantes, seguido na cola pelo Paquistão, com 201 milhões.

Números de um almanaque, mas fazem pensar.

Terça, 23 Abril 2019 13:25

Fé e imposto

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O governo do Estado decidiu desburocratizar a concessão de isenção do pagamento de ICMS sobre o consumo de energia elétrica de instituições religiosas. Elas continuarão a pagar pelo consumo, mas não pelo imposto, o que significa uma redução de 25% sobre a soma final da conta. Esse é o valor da alíquota do ICMS, uma das maiores do país pela atual gestão estadual. A sistemática anterior era muito burocrática, que estava em vigor até o fim do ano passado, segundo o governo.

Na solenidade de ontem, o governador Helder Barbalho argumentou que o o benefício atesta a importância dos templos religiosos para a construção de uma sociedade melhor, mais justa e, acima de tudo, acolhida por todos. Assim, as instituições religiosas continuariam a ser “um braço de parceria para o resgate da sociedade”.

O secretário de Fazenda, René Sousa, lembrou: “Muitas dessas igrejas chegam a locais onde o Estado não está. Ao abrir mão desse imposto, o que não deixa de ser uma doação do dinheiro público, que deveria ser recolhido ao Estado, as instituições podem seguir utilizando esses recursos tirando jovens da criminalidade, por exemplo”.

A multiplicação impressionante de templos religiosos, principalmente das várias igrejas evangélicas, várias das quais se assemelham a lojas de franquia, deveria ter levado o governo a realizar uma audiência pública para ajuda-lo a separar o joio do trigo, para não ajudar pessoas que se valem da religião para explorar a fé pública.

Além disso, verificaria se a isenção do ICMS sobre o consumo de energia é mesmo a maneira mais adequada e correta de apoiar a ação das instituições sérias, na parte assistencial. Talvez a melhor maneira de conceder o benefício seria através de convênios direcionados para os projetos e programas das organizações religiosas em benefício dos seus fieis, sem permitir que o Estado continue a se desincumbir de um dos seus maiores deveres – sem fazer politicagem disso.

Sexta, 19 Abril 2019 09:13

Ruy: 10, 100, 1.000

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Em homenagem ao centenário de Ruy Paranatinga Barata, poeta, escritor, professor, político, jornalista e homem do mundo, Tito Barata reproduziu em seu Facebook uma das melhores criações do pai, um olhar no espelho para avaliar seus 40 anos, quase meio século atrás:

"Cresço em tempo e eternidade,
cresço em luta,
cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor,
cresço nos filhos crescendo,
cresço depois que me for".

Ruy Barata em "Canção dos quarenta anos". 1961.

Postei o seguinte comentário:

O Ruy conseguiu a rara combinação de intelectual e homem de rua, Transformava as circunstâncias em poemas, o cotidiano em perenidade, graças à sua vivência, à sua inteligência, ao seu conhecimento e à sua sensibilidade. Este poema, um dos melhores que ele criou e antológico no gênero, exemplifica a sua grandeza, do mesmo nível de um Vinícius de Moraes ou, muito antes, Emílio de Menezes. Outro poema que deves reproduzir, Tito (aliás, poderias fazer uma outra antilogia para o centenário), é o que saiu na coleção Viola do Povo, da Civilização Brasileira, dedicado à defesa da Argélia contra a guerra colonial da França de de Gaulle. Um brinde ao Ruy.

Terça, 16 Abril 2019 16:02

História oculta

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A Imprensa Oficial do Estado vai comemorar seus 129 anos de fundação com uma mesa-redonda sobre o papel do Estado no incentivo à leitura e produção literária. O objetivo é “reunir subsídios para a criação da Editora Pública”, que terá um conselho editorial, formado por especialistas no assunto, “com regras claras de como serão publicados os livros pelo Estado”.

A editora poderia começar imediatamente suas atividades, mesmo ainda estando na fase de projeto, colocando nas livrarias um livro que ela publicou e está pronto para sei distribuído. Trata-se de um volume (de boa qualidade gráfica) de 454 páginas, A história no Diário Oficial (Governo Alacid Nunes, novembro de 1967 a julho de 1969), escrito pelo jornalista Nélio Palheta, que já dirigiu a Imprensa Oficial.

Ele continuou, ampliou e aprofundou o trabalho pioneiro de Ribamar Castro (já falecido), que começou o levantamento dos principais atos oficiais publicados nos arquivos do Diário Oficial. O resultado foram três volumes sobre a república no Pará até Magalhães Barata, seu sucessor do PSD no governo, o golpe militar de 1964 e a administração de Jarbas Passarinho, com os primeiros meses de Alacid.

Prosseguindo a partir daí. Nélio Palheta sumarizou a administração de Alacid ao longo de 21 meses, permitindo reconstituir ou relembrar um período pouco estudado da instalação de um novo poder no Estado. Trata-se de contribuição documental valiosa, que a IOE, coerente com o que promete fazer (“regras claras” de edição) e comprometida com a história estadual, precisa tirar de algum escaninho de onde o livro se encontra e colocá-lo à disposição dos interessados – que não são poucos.

A mesa-redonda de amanhã pode ser a oportunidade adequada.

Segunda, 15 Abril 2019 18:58

A França que vira cinza

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Eu estava catando livros no meio do acervo da biblioteca do seminário de Ananindeua que seriam descartados. Fiz uma pausa e fui ao bebedouro. Acima dele, uma televisão estava ligada. Enquanto bebia a água, observei uma cena na tela: um prédio pegava fogo. Pensei: esses filmes de desastres estão cada vez mais realistas. Subitamente, um avião se choca com outro prédio. Saio então da minha letargia: não era ficção. Os prédios eram as torres gêmeas de Nova York, que eu visitara anos antes. A colisão era verdadeira. Mas não podiam ser. Afinal, era a cidade símbolo do império americano, então completamente hegemônico no mundo. NY era inexpugnável. Inconcebível aquele atentado. Os Estados Unidos perdiam de vez a presunção de invencibilidade.

Tive sensação semelhante ao entrar numa padaria suburbana no fim desta tarde. Passando diante de um aparelho de televisão pendurado na parede, vi a catedral de Notre-Dame pegando fogo. Não um incêndio qualquer: enormes labaredas atravessavam o telhado e subiam aos céus. O telhado, aliás, já não existia mais. Todas as peças de madeira do templo já viravam cinzas. O fogo ainda estava muito alto e as pessoas já davam como ameaçado de destruição um dos mais belos e importantes monumentos edificados pelo homem em todos os tempos, visitado por dezenas de milhões de pessoas. Todos pareciam impotentes.

Como isso pôde acontecer em pleno coração de Paris? Que França é esta, incapaz de proteger uma das mais preciosas joias arquitetônicas e históricas, bem da humanidade, relíquia inesquecível na memória dos que tiveram a ventura de conhecê-la? O amor dos franceses por sua terra e sua cultura tornava impossível sequer conjecturar, no momento de maior pessimismo, que um incêndio pudesse irromper na catedral e cumprir a sua tarefa devastadora diante de espectadores paralisados pelo choque da surpresa absoluta, enquanto autoridades já afiavam o seu vocabulário para as perorações cartesianas de estilo.

Quase duas décadas da depois da destruição das duas catedrais do império made in USA, com seu pragmatismo e seu gigantismo refratário aos detalhes e delicadezas, a destruição de Notre-Dame reduz os responsáveis pela guarda e segurança do monumento ao que agora se revelam: pigmeus da história. A França está descendo mais alguns patamares da sua grandeza de outrora.

Domingo, 14 Abril 2019 12:42

O samba-canção

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O samba-canção é a quintessência da criação musical brasileira. Refinou a produção anterior e abriu as portas para o gênero nacional (autêntico, sim, apesar do Tinhorão) de maior repercussão internacional, a bossa nova. Sou da privilegiada geração que acompanhou a passagem de bastião ouvindo os melhores cantores interpretarem as melhores obras do nosso cancioneiro, tendo ao fundo o jazz e a música clássica.

No seu artigo de hoje, Ruy Castro apregoa o que ele considera "um dos melhores discos brasileiros em muitos anos". A obra reúne Tito Madi (que compunha e cantava como poucos), a cantora Nana (redimida das besteiras que andou dizendo), o pianista Cristóvão Bastos e o violonista Dori Caymmi.

Não ouvi ainda, mas já gostei, E recomendo.

Quinta, 28 Março 2019 10:45

Cultura oficial

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O secretário adjunto de Cultura, Bruno Chagas Ferreira, autorizou a concessão de 5,5 mil reais como suprimentos de fundos ao servidor Adriano Barroso dos Santos, que é diretor do Departamento de Artes Cênicas. A autorização, publicada hoje, é “para atender as despesas de pronto pagamento”, com prazo de 60 dias para a realização das despesas. A liberação foi efetuada através de dois atos, um de R$ 4 mil e outro de R$ 1,5 mil.

A questão que essa dupla autorização suscita é se ela foi adotada para contornar a limitação legal máxima, de R$ 4 mil, para esse tipo de pesquisa.

ARTISTAS

O mesmo secretário-adjunto da Secult autorizou a contratação da Banda Álibi de Orfeu, representada por Rui Afonso do Nascimento Paiva, para participar da programação do Dia Internacional da Mulher, especificamente no evento denominado: Verbo de Ser Mulher, que foi realizado no Teatro Estação Gasômetro em Belém, no último dia 9 de março.

Segunda, 25 Março 2019 15:21

R$ 12 mil para Pinduca

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A Secretaria de Cultura do Estado decidiu aplicar 12 mil reais “para viabilizar a participação do profissional do setor artístico Aurino Pinduca Quirino Gonçalves, na programação do 19º Festival da Pororoca, no Município de São Domingos do Capim”, que aconteceu no último sábado, 23.

A iniciativa foi adotada com inexigibilidade de licitação, a 3ª do governo Helder Barbalho, tendo Úrsula Vidal como secretária (o responsável pelo ato foi o secretário substituto, Bruno Chagas da Silva Rodrigues Ferreira). Em nome de Pinduca, foi contratado Cleber Henrique Almeida Figueiredo.

Domingo, 10 Março 2019 17:53

Uma data é uma data

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Ivo Barroso é um imortal. Até já presidiu a Academia Brasileira e Letras, onde se contemplam esse gênero humano (demasiadamente pouco humano). Vaidade, por isso, não lhe falta. Nem talento, conhecimento e erudição. Não é dos grandes poetas. Mas é poeta suficiente para ser um excelente tradutor de grandes poetas, de tradução difícil - ou impossível  - sem a "transliteração", recomendada pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, às vezes executada por eles com excessos que podem ser debitados à frustração com os próprios versos.

Ivo Barroso se expressa muito bem tanto pelo que leu quanto pelo que viveu. Suas análises e interpretações se beneficiam do que falta nos críticos outrora ditos como estruturalistas (agora pós-modernos?), talvez porque dissecavam as palavras com compasso e transferidor (não com a régua e o compasso dos verdadeiros criadores, como Elliot, e inventores, como Pound, para ficar nos dois parceiros, gigantes da literatura do século passado - e dos que ainda virão, se vierem).

Barroso se tornou crítico (e tradutor, prevenido contra o traidor: traduttore, traditore) pelo prazer de ler, pela fluência do prazer e pelo intercâmbio do saber com o viver. De todos os ingredientes dá testemunho em seu Breviário de Afetos, lançado no ano passado pelo Sesi de São Paulo, um dos elos do novelo amarfanhado do sistema S, que vende alguns dos livros mais caros do mercado, indiferente à sua missão de também difundir a cultura).

Elias Pinto dedica a sua página de hoje no Diário do Pará a resenhar o livro, dando destaque ao testemunho de Ivo Barroso sobre outro poeta, o piauiense Mário Faustino, que se formou intelectualmente no Pará, onde ficou o seu umbigo, ao fim da sua curta vida, encerrada por um acidente de avião, em 1962. Talvez, se tivesse ido além dos 32 anos, teria se libertado da influência avassaladora de Ezra Pound sobre seu verso e prosa, e voado mais alto, mais solto, mais ele mesmo. Guiado pelo mestre e empenhado em tirar lições dos ensinamentos teóricos e dos versos épicos de sua matriz, sinto em Mário Faustino um gosto cada vez mais difuso, com datação em muito do que produziu, sem desmerecer a sua enorme capacidade intelectual. Sensação de mero leitor.

Tomando conhecimento da convivência entre Barroso e Faustino, verifiquei que ele publicou pela primeira vez a sua página-manifesto, Poesia-Experiência, no célebre Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 23 de setembro de 1956. Nessa mesma data, eu completava sete anos na mui acolhedora Santa Maria de Belém do Grão Pará. No Grupo Escolar Camilo Salgado, no Jurunas, dirigido pela querida tia, a professora Erotildes Pinto Frota Aguiar, eu já tinha acesso a alguns versos e demais prosas na aula de leitura, o melhor momento para mim, estivesse lendo um texto do livro ou ouvindo a leitura de algum colega.

A antologia reunia alguns dos clássicos, como Machado de Assis e José de Alencar. Nessa idade, não sabíamos quem eram eles, mas podíamos apreciar o que criaram sem precisar de referência bibliográfica para aceitá-los ou reverenciá-los. O que interessava era se o que líamos ou ouvíamos nos prendia, nos encantava ou nos dava prazer. Uma formação que nos vacinava, na idade certa, para os circunlóquios e outras circunavegações estéreis da Chatafísica, a ciência que, afinal, esses demiurgos praticam até hoje. Agora nessa fonte de receptação do saber que é a internet.

Só tomando ciência da coincidência ao ler a página do Elias, hoje, evidentemente, a relação do meu aniversário com o nascimento da página editada por Mário Faustino não pode ir além do registro de almanaque Capivarol. Por sinal, como era maravilhoso ler almanaques na minha época de Pedrinho, enteado do mestre Monteiro Lobato, que podia transitar pelo folclore brasileiro, de Saci Pererê a Tia Anastácia sem ter que se sujeitar ao índex dos donos da verdade dos nossos dias.

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