Quarta, 17 Abril 2019 17:47

Autocensura

Os leitores do Diário do Pará e O Liberal ficaram sem saber que a Polícia Federal foi à residência do presidente afastado da Vale, Fábio Schvartsman, e do diretor executivo Peter Poppinga, também afastado. A missão da PF era apreender documentos e material requisitado como prova no inquérito que apura a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, pelo rompimento de barragem da mineradora, com 229 mortos e 48 desaparecidos até agora.

Os dois jornais, fartamente premiados com publicidade da mineradora, fizeram autocensura, provavelmente para retribuir à generosidade da companhia. Por isso, reproduzo a matéria publicada pela Folha de S. Paulo de hoje.

Cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira (16) como parte do inquérito que apura a tragédia do rompimento da barragem na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). Até o momento, são 229 mortos e 48 desaparecidos.

Um dos mandados foi cumprido em São Paulo, na casa do presidente afastado, Fábio Schvartsman. Outro, no Rio de Janeiro, na casa do diretor executivo afastado, Peter Poppinga. Houve ainda dois em Belo Horizonte e um em Nova Lima, na região metropolitana da capital mineira, também em residências de funcionários da Vale. 

Segundo a Polícia Federal, as buscas foram necessárias devido a novos fatos que surgiram em oitivas, análises de documentos e de outras mídias coletadas pela investigação. 

O inquérito, que estava previsto para ser desmembrado em dois, pelo delegado responsável pelo caso, Luiz Augusto Pessoa Nogueira, irá seguir como um só, por enquanto, devido a necessidade de mais informações e diligências. A PF pretende chamar mais pessoas para depoimento.

As buscas desta terça foram um pedido da PF, com manifestação favorável do Ministério Público Federal e autorização da 9ª Vara da Justiça Federal em Belo Horizonte. Não houve resistência ao cumprimento em nenhum dos locais. 
A Vale respondeu que, desde o rompimento da barragem, “seus empregados têm apresentado todos os documentos e informações solicitados voluntariamente e, como maior interessada na apuração dos fatos, continuará contribuindo com as investigações”.

Ainda de acordo com a PF, fatos que estão sendo levantados na comissão parlamentar de inquérito da Assembleia Legislativa de Minas Gerais já eram do conhecimento da polícia e não estão influenciando as investigações.

Em oitiva realizada nesta segunda, Wagner Araújo, chefe de Divisão de Segurança de Barragens de Mineração, vinculado à Agência Nacional de Mineração (ANM), disse que a barragem que se rompeu não era vistoriada pelo governo federal desde 2016.

Publicado em Política
Domingo, 14 Abril 2019 18:18

Juruti e Alcoa

Juruti completa neste mês 201 anos de existência. Sua maior empresa está no município há 10 anos. Em 2006, quando a Alcoa, a maior produtora de alumínio do mundo, começou a se instalar no município, o Produto Interno Bruto local era de 70 milhões de reais. Chegou a R$ 905 milhões em 2014. No mesmo ano, a renda por pessoa ultrapassou R$ 17 mil. Em 2000, era de apenas R$ 1.137,00.

Num press release que distribuiu para comemorar a data, a Alcoa diz que uma das frentes que utiliza no campo social é o Ijus (Instituto Juruti Sustentável), criada com o aporte financeiro da mineradora americana para financiar projetos na área de sustentabilidade. Ao longo de 10 anos, mais de 3.500 pessoas foram beneficiadas diretamente, com a aplicação em torno de um milhão de reais em investimentos a fundo perdido.

Líder mundial em produtos de bauxita, alumina e alumínio, no Brasil, a Alcoa possui três unidades produtivas, em Poços de Caldas (MG), São Luís (MA) e Juruti, escritórios em São Paulo (SP), Poços de Caldas (MG) e Brasília (DF), além de participação acionária na Mineração Rio do Norte, em Oriximiná, e em quatro usinas hidrelétricas: Machadinho, Barra Grande, Serra do Facão e Estreito.

Na nota à imprensa, a Alcoa não tratou especificamente do seu investimento na mina de bauxita de Juruti, de onde extrai minério para a sua fábrica de alumina em São Luís do Maranhão. O aniversário de Juruti não foi a oportunidade para abrir o interesse por essa atividade, que assinalou uma nova etapa na história do município, no extremo oeste do Pará.

Publicado em Economia
Terça, 09 Abril 2019 17:02

Estrangeiros saem da Vale

A Vale está sob pressão dos investidores para melhorar a segurança nas suas operações. O Financial Times anunciou que a Union Investment, a terceira maior administradora de investimentos da Alemanha, vendeu todas as ações e títulos que detinha na mineradora brasileira, depois do rompimento da barragem e Brumadinho, em janeiro,  que deixou mais de 220 mortos e mais de 70 pessoas desaparecidas.

A Union Investment administra 338 bilhões de dólares (1,3 trilhão de reais) em ativos, e controla 15% do mercado de investimentos alemão. A companhia era pequena acionista da Vale, e em março decidiu vender seus títulos e ações.

"A Vale foi excluída de todos os produtos que temos sob administração ativa", disse Henrik Pontzen, diretor de governança, questões ambientais e questões sociais na Union Investment.

Outra pessoa familiarizada com as discussões internas na Union Investment disse ao FT que a decisão foi tomada depois de discussões com a Vale que levaram à conclusão de que a mineradora tinha "falhas estruturais significativas" e que não havia implementado "medidas suficientes" para prevenir catástrofes semelhantes.

Já a Allianz Global Investors, segunda maior administradora de ativos da Alemanha, informou que reduziu sua exposição à Vale depois do desastre com a barragem de Mariana, também em Minas, em 2015, e que havia deixado de ser acionista da Vale muito antes de janeiro deste ano.

Susana Penarrubia, diretora de integração social e ambiental e de governança na DWS, a maior administradora de investimentos da Alemanha, disse à agência de notícias Reuters que o colapso da barragem "é uma nova confirmação de nossa posição muito cautelosa quanto ao setor de mineração, em termos ambientais, sociais e de governança", e acrescentou que a DWS já havia excluído a Vale de seus investimentos nessas áreas e revisaria as posições detidas na empresa em nome de clientes institucionais.

Relata o jornal londrino que a Igreja anglicana vendeu suas ações, no valor de menos de 10 milhões de libras ( 50,4 milhões de reais), nos dias que se seguiram ao desastre, enquanto o conselho de ética da Suécia - que assessora diversos fundos de pensão naquele país - instou seus clientes, no mês passado, a abandonar seus investimentos, por haver "perdido a confiança" na companhia.

Na sexta-feira da semana passada, a Igreja e o conselho conclamaram todas as companhias mineradoras de capital aberto a revelar "todas as instalações individuais de rejeitos que tenham sob seu controle".

A carta da Igreja solicitava que 683 companhias de mineração em todo o mundo revelassem suas instalações de rejeitos em prazo de 45 dias. "É essencial que os investidores tenham visão clara sobre que empresa controla que instalação de rejeitos, e sobre como essas instalações estão sendo administradas", disse Adam Matthews, diretor de ética e engajamento do Conselho de Pensões da Igreja anglicana. A carta recebeu apoio de 96 investidores, que têm US$ 10,3 trilhões (R$ 39,8 trilhões) em ativos sob administração.

O fundo de investimento petroleiro da Noruega, o maior fundo nacional de investimentos do planeta, que detém 1,1% da Vale, disse ao Financial Times que está dialogando com a empresa desde o desastre e que o conselho de ética da Noruega, que assessora o fundo petroleiro sobre vender ou não suas participações em determinadas empresas, estava investigando a Vale.

Relata o Financial Times que os investidores estrangeiros passaram anos rejeitando a Vale, uma situação que só mudou quando a companhia mudou sua estrutura acionária, pouco antes da chegada de Schvartsman, na metade de 2017. Isso resultou na dissolução de um pacto entre acionistas controladores que estava em vigor há duas décadas.

Dois dos quatro fundos de pensão brasileiros que formam o grupo chamado Litel - o maior acionista da Vale, com 21% - não responderam a pedidos de comentários. Os outros dois se recusaram a comentar, assim como a Vale.

O banco nacional de desenvolvimento brasileiro, o BNDES, que detém 6,3% da companhia, se recusou a comentar. O banco Bradesco disse ao jornal inglês que manteria sua participação de 5,7%.

No mês passado, a polícia e magistrados brasileiros se referiram, em documentos judiciais, a "provas" de que a Vale estava ciente de que a barragem que entrou em colapso apresentava forte risco de ruptura, e que a empresa exerceu "pressão" sobre os inspetores que a certificaram como segura.

Eles alertaram que a Vale poderia ficar sujeita a penalidades financeiras e também a "sanções mais drásticas, como a suspensão parcial ou proibição de suas atividades, ou mesmo a dissolução compulsória da companhia".

Ricardo Salles, ministro do meio ambiente, admitiu que "a maior responsabilidade cabe à companhia, sem dúvida", acrescentando que a fiscalização de barragens deve ser melhorada, de modo geral.

A Vale anunciou esta semana que suspendera as operações em 10 de suas barragens em Minas Gerais. A decisão se segue à adoção pelas autoridades de critérios novos e mais rigorosos para avaliar o nível de ameaça.

Publicado em Economia
Terça, 02 Abril 2019 10:35

Custo da tragédia

A Justiça de Minas Gerais já bloqueou 17,6 bilhões de reais da Vale. Mais de R$ 13 bilhões são reservados para indenizar as vítimas e reparar os danos causados pelo rompimento da barragem de Brumadinho, que aconteceu no dia 25 de janeiro, matando mais de 300 pessoas e poluindo o meio ambiente. Os R$ 4 bilhões restantes são para prevenir e remediar efeitos semelhantes em outras duas barragens da mineradora com risco de rompimento.

A Vale calcula que os impactos da tragédia de Brumadinho equivaleram a  até 75 milhões de toneladas em vendas em 2019. Isso é menos de 20% do que a empresa exportou no ano passado.

Ainda está saindo barato.

Publicado em Ecologia
Terça, 02 Abril 2019 10:16

Vale perde, mas nem tanto

O volume de minério de ferro exportado pelo Brasil em março caiu 26% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Foram 22 milhões de toneladas, o menor volume mensal em seis anos.

No entanto, o valor da exportação do minério caiu menos, cerca de 17%, chegando a 1,4 bilhão de dólares, graças à elevação em 11,6% do preço do ferro comparativamente ao valor do mesmo período do ano passado. A tonelada saiu a US$ 62,5 a tonelada, graças ao mercado chinês.

Essa valorização impediu uma perda maior no faturamento do Brasil com as exportações e ajudou a sustentar as ações da Vale, a maior produtora nacional e a maior comercializadora de minério de ferro no mundo, apesar de uma queda nos volumes previstos pela própria companhia. Ontem, a ação da Vale subiu mais de 3%.

Por iniciativa própria ou determinação judicial, depois do desastre de Brumadinho, em Minas Gerais, a Vale reduziu em 93 milhões de toneladas anuais a sua capacidade de produção. A companhia diz estar disposta a vender até 75 milhões de toneladas a menos do que o programado em 2019, ou 20% menos do que o previsto neste ano. Se os preços internacionais continuarem a se comportar omo neste início de ano, a Vale perderá em valor menos do que reduzirá em volume físico de venda. E talvez nem chegue a perder.

Publicado em Ecologia
Quinta, 28 Março 2019 21:23

Lucro da Vale

A  lucro líquido Vale no ano passado foi de R$ 25,6 bilhões. Foi o melhor desempenho da mineradora desde 2011. Superou em 45,6% o lucro do ano anterior, Em dólares, significou US$ 6,9 bilhões em 2018, US$ 1,5 bilhão maior do que o de 2017. A diferença a mais equivale a tudo que a mineradora calcula que irá pagar pelo desastre de Brumadinho, causado pelo rompimento de uma das suas 10 perigosas barragens de retenção de rejeitos de minério de ferro em Minas Gerais. Em função desse fato, a empresa não distribuirá dividendos aos seus acionistas.  Quando nada...

Publicado em Ecologia
Terça, 26 Março 2019 16:33

A Vale e a inovação

Por ironia, no ano em que voltou a causar um desastre ecológico e social em Minas Gerais, a Vale integrou pela primeira vez a lista das 50 empresas mais inovadoras, ranking que o Boston Consulting Group, dos Estados Unidos, organiza pelo 13º ano seguido.

No topo ficou a Alphabet/Google, interrompendo a hegemonia de 12 anos da Apple. A Vale foi a primeira das mineradoras, ocupando o 19º lugar. Atrás dela ficaram as suas concorrentes BP (46ª) e a Rio Tinto (49ª).

As 10 empresas mais inovadoras do mundo usam inteligência artificial com frequência, além de plataformas para crescer mais rápido que os concorrentes e os mercados.

Os mineiros em particular e os brasileiros em geral, incluindo os paraenses, gostariam muito que a Vale se destacasse num tipo especial de inovação: a valorização da vida humana e da natureza.

Estas são as empresas mais inovadoras de 2019 segundo o BCG:

1º: Alphabet/Google
2º: Amazon
3º: Apple
4º: Microsoft
5º: Samsung
6º: Netflix
7º: IBM
8º: Facebook
9º: Tesla
10º: Adidas
11º: Boeing
12º: BASF
13º: T-Mobile
14º: Johnson & Johnson
15º: DowDuPont
16º: Siemens
17º: Cisco Systems
18º: LG Electronics
19º: Vale
20º: JPMorgan Chase
21º: Mc Donald’s
22º: Marriott
23º: Alibaba
24º: Bayer
25º: AT&T
26º: Allianz
27º: BMW
28º: SAP
29º: Philips
30º: Royal Dutch Shell
31º: AXA
32º: Unilever
33º: Salesforce
34º: Pfizer
35º: Stryker
36º: NTT Docomo
37º: Toyota
38º: Volkswagen
39º: 3M
40º: General Motors
41º: Dell
42º: Walmart
43º: eBay
44º: HP Inc.
45º: ING
46º: BP
47º: Daimier
48º: Huawei
49º: Rio Tinto
50º: Hilton

Publicado em Ecologia
Sábado, 23 Março 2019 15:39

A ameaça da lama

Desde a última quarta-feira, os 9 mil mlradores de Barão de Cocais, na região central de Minas Gerais, vivem sob crescente tensão. Sirenes de alerta já soaram e divulgados anúncios de rompimento de mais uma das barragens de alto risco construídas pela Vale para receber rejeitos de mineração.

Desta vez, na mina de Gongo Soco, com uma estrutura de 85 metros de altura, que retém seis milhões de metros cúbicos (seis bilhões de litros) de rejeitos de minério de ferro. Se o dique se romper, em uma hora a lama alcançará o centro da cidade. Esse será o tempo para a retirada dos seus 9 mil moradores, que estão na faixa de passagem da lama pelo vale do rio São João. A barragem é do mesmo tipo das de Mariana e Brumadinho.

O acidente - ou a tragédia - ainda é ameaça, embora iminente. Mas quantos danos já está causando aos moradores, que vivem sobressaltados há quatro dias, tendo que confiar no plano de evacuação da Vale com as autoridades para preservar as suas vidas (mas não os seus patrimônios)?

Não há mais dúvida: todas essas barragens precisam ser desmobilizadas e encerrada a mineração, à qual se conectam. Como o passo seguinte é deslocar essa produção para Carajás, é urgente a questão: o que faz o governo do Estado para se antecipar a essa iniciativa da Vale:?

Publicado em Ecologia
Terça, 05 Março 2019 17:44

A Vale e o trabalho

Em 31 de dezembro de 2017, a Vale e suas controladas eram partes em quase 21 mil (20.926 exatamente) processos judiciais de natureza trabalhista, envolvendo o valor total de 18 bilhões de reais, para os quais havia então R$ 1,7 bilhão (10% do total avaliado) de provisões em razão dos riscos envolvidos. Essas versam sobre matérias como horas extras, horas in itinere (tempo gasto no percurso da residência ao trabalho), adicionais de insalubridade e periculosidade, equiparação salarial e terceirização, dentre outros, segundo as contas da própria empresa.

Publicado em Justiça
Terça, 05 Março 2019 17:33

Os riscos da Vale

Uma redução de preço de apenas um dólar por tonelada no preço médio do minério de ferro no mercado internacional teria reduzido o lucro operacional da Vale no ano encerrado em 31 de dezembro de 2017 em aproximadamente US$ 300 milhões (mais de um bilhão de reais).

Só esse dado, que consta do último Formulário de Referência da companhia, documento interno produzido pela auditora independente KPMG no ano passado, revela como a empresa é afetada pelos movimentos nos preços do minério de ferro.

Os preços médios do minério de ferro mudaram significativamente nos últimos cinco anos, de US$ 135 por tonelada em 2013 para US$ 97 em 2014, US$ 55,5 em 2015, US$ 58,5 em 2016 e US$ 71,3 em 2017, para o minério com teor de pureza de 62% posto na China (o de Carajás tem mais de 66%).

A demanda por produtos de minério de ferro, carvão e níquel depende da demanda global por aço. O minério de ferro e pelotas, que, em conjunto, representaram 71,2% da receita operacional líquida da Vale de 2017, são utilizados para produção de aço carbono. O níquel, responsável por 13,7% da receita operacional líquida, é utilizado principalmente para produzir aço inoxidável e ligas de aço.

Os preços dos diferentes tipos de aço e o desempenho da indústria siderúrgica global “são altamente cíclicos e voláteis, e esses ciclos de negócios na indústria siderúrgica afetam a demanda e os preços dos produtos da Companhia”. Observa o relatório.

Além disso, a integração vertical a montante das indústrias siderúrgica e de aço inoxidável e o uso de sucata “podem reduzir o comércio transoceânico global de minério de ferro e níquel primário”.

A demanda por cobre é afetada pela demanda de fio de cobre e um continuado declínio na demanda da indústria da construção poderia ter um impacto negativo nos negócios de cobre da empresa. Atuando em várias partes do mundo, a mineradora tem que considerar muitos fatores de risco, os mais graves, nos últimos tempos, provocados por ela mesma, nos desastres de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.

Publicado em Economia
Página 1 de 10