Segunda, 05 Fevereiro 2018 14:56

A carta de Hélio Gueiros

Elias Ribeiro Pinto, meu irmão, relembrou, na sua página dominical no Diário do Pará de ontem, o tristemente famoso episódio da carta que Hélio Gueiros escreveu, em 18 de abril de 1991, repleta de palavrões e ofensas contra mim.

Toda fúria a pretexto de um artigo meu em A Província do Pará, reproduzindo as declarações de Jader Barbalho em uma entrevista exclusiva que me concedeu. Jader criticou a administração anterior, que Hélio (seu ex-amigo e então inimigo mortal, antes de voltar a ser amigo de infância) deixara havia apenas um mês. O principal ponto era o gasto de boa parte do orçamento para o ano inteiro, que Jader atribuía a Hélio.

Durante um bom tempo depois de me mandar a carta, Hélio Gueiros evitou comentá-la. Até que Elias incluiu a pergunta num questionário encaminhado ao ex-governador, admitindo que o entrevistado pudesse omitir o que lhe pedia: uma análise do acontecimento da perspectiva posterior.

Gueiros respondeu: “Embora você me desse a liberdade de não responder à pergunta, respondo. Poderia escrever um tratado de mil páginas tentando explicar a minha reação, mas não adianta nada. Não se pode nem se deve justificar o injustificável”.

Com essa inesperada autocrítica do caluniador, considerei encerrado um dos episódios mais tristes da minha vida, não só por tentar me ofender, mas, em especial, por ofender a minha mãe, embora indiretamente, por me desferir uma das mais torpes agressões em forma de palavrão (ainda somos de gerações que colocavam a mãe no seu devido lugar, num reconhecimento ao que significava para nós).

Foi importante para mim essa declaração. Por quatro vezes eu tentei encontrar Hélio pessoalmente para defender a minha honra e a da minha família. Felizmente para todos, o confronto não aconteceu.

Na primeira, foi quando ele compareceu à Câmara Municipal de Belém e fui impedido de abordá-lo por Luiz Otávio Campos, que fora secretário estadual e integrava o grupo de Gueiros (agora é aliado de Jader Barbalho).

A segunda tentativa foi no auditório da Fiepa, mas ele não apareceu. Em seguida, no velório do advogado Daniel Coelho de Souza, no hall da Assembleia Legislativa. Desta vez foi por interferência de Frederico, filho do ilustre morto (e também precocemente falecido). Já que não podia evitar a aproximação de Hélio e sua esposa, Terezinha, que se dirigiam para o caixão, onde estávamos, me pediu:

“Lúcio, meu irmão, o doutor Hélio vem aí. Trata-o bem, pelo papai”, foram as palavras do Fred. Virei-me e quando Hélio me estendeu a mão, respondi ao cumprimento. E me afastei do local.

O último encontro foi na missa do sétimo dia de morte do jornalista Euclides Bandeira, na capela de Santo Antonio de Lisboa, em Batista Campos. Eu fiz todas as leituras da cerimônia, a pedido de Regina, a esposa, e de Walter, o irmão, que estavam tensos e nervosos. Ao me cumprimentar, Hélio comentou, bem ao seu estilo: “Lúcio, quase tu substituis o padre”. Ao que não consegui deixar de responder: “Menos na hora do vinho, doutor Hélio. Aí seria a sua vez”.

Depois de muitos anos de relacionamento com Hélio, foi a primeira vez que o vi desnorteado, sem conseguir encontrar a tréplica. Calou-se e seguiu. Acho que, fiel aos seus anos de jornalismo irônico e sarcástico, admitiu, no íntimo, que fora derrotado. Como fez, olimpicamente, devo reconhecer, na resposta ao questionário do Elias, pondo fim a um capítulo negro da sua biografia.

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Segunda, 05 Fevereiro 2018 14:53

O público e o privado

Em 2011, no final dos seus oito anos de mandato como prefeito de Belém, Duciomar Costa inaugurou com festa aquela que considerou como uma das suas maiores obras: o Pórtico Metrópole. Na época, a um custo de sete milhões de reais (hoje, 10 milhões), tinha como maior beneficiado o shopping Castanheira, do grupo Líder, em Ananindeua.

O pórtico era, na verdade, uma passarela ligando o estabelecimento comercial a um dos pontos de mais intensa circulação diária de milhares de pessoas na BR-316, parada de todas as linhas de ônibus que por ali passam. O poder público municipal facilitando a vida de uma empresa privada.

A dois meses de completar sete anos de inaugurado, o pórtico é um retrato patético do que foi, Diferentemente de outras passarelas, construções rústicas, expondo os seus usuários ao sol e à chuva, o pórtico era fechado, dispunha de elevadores e escadas rolantes. Essas comodidades desapareceram, deterioradas pelo tempo e o descaso da prefeitura.

Oscar Rodrigues, um dos donos do grupo Líder, ocupou uma página do Diário do Pará de ontem para denunciar a situação de abandono das instalações, que já serviram de cena até para um homicídio e é fonte de incômodos para quem precisa passar por ali,

Oscar, que assumiu diretamente a administração do Castanheira, no final do ano passado, substituindo a filha, diz ter procurado o prefeito Zenaldo Coutinho para lhe expor o problema e lhe apresentar uma solução: o Líder assumiria a operação da passarela, ao custo de R$ 150 mil ao mês, desde que a prefeitura fizesse a recuperação da construção e garantisse a sua segurança, além de  dar desconto de IPTU sobre o terreno, que foi desapropriado por Duciomar, mas não pago.

Oscar se queixa de jamais ter tido uma resposta do prefeito ou dos seus auxiliares, indiferentes ao oferecimento da empresa, que tem, a seu crédito, haver concordado com a desapropriação de seu terreno para a instalação de uma das extremidades do pórtico.

A iniciativa é saudável, mas está atrasada quase sete anos. O Líder devia ter tomado consciência do benefício que o poder público lhe estava trazendo, com a melhor das seis passarelas de então ao longo da BR-316, já na inauguração. Ao invés de partilhar essa conquista, agregando a sua parte para a consolidação do investimento, preferiu se omitir e poupar seu capital.

Só reage porque o acesso ao seu shopping foi sendo dificultado para quem não mora às proximidades, o faturamento caiu e há agora a concorrência de outro shopping na estrada, por ironia chamado Metrópole. Ao invés de ficar esperando pelo prefeito, toda população de Belém, carente de obras, Oscar Rodrigues deveria fazer o que pede de Zenaldo para o bem de todos e não só do Líder.

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Domingo, 04 Fevereiro 2018 14:50

No rastro do dinheiro

Raul Schmidt, preso ontem em Portugal, tem um currículo (ou folha corrida) especial no conjunto dos personagens da Operação Lava-Jato. Por duas vezes, uma na Inglaterra e outra, agora, em Portugal, ele se tornou foragido da justiça, com dinheiro suficiente para se esconder e tentar escapar à perseguição de várias polícias. Ousadia, portanto, não lhe falta – e o distingue dos demais perseguidos, presos, indiciados, denunciados e sentenciados.

Mas não é só por isso que ele tem importância. Ele parece ser o elo mais forte entre as propinas pagas pelo cartel das empreiteiras e um alvo que ainda não foi adequadamente visado: os contratos para a construção das sondas para as pesquisas de petróleo no pré-sal. Os valores correntes nessas transações são medidos em bilhões de reais. Talvez se essa caixa preta for arrombada, se chegue a outra, igual ou maior: o BNDES.

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Sábado, 03 Fevereiro 2018 14:33

Cristina: go home!

Quantos patrões já não foram injustiçados pela justiça do trabalho? Principalmente aqueles patrões de si mesmos ou contratantes de empregados domésticos. E quantos dos atos de justiça não se consumaram por constranger as partes a um acordo no qual estava embutido um pedágio, a reforçar a sabedoria popular, de que o pior acordo é melhor do que a melhor demanda judicial?

A justiça é sublime, o mais elevado dos poderes institucionais, quando acerta. É o pior dos castigos, independentemente de acertar ou errar, quando submete as partes do contencioso à tortura psicológica do tempo perdido (que só mesmo Proust seria capaz de recuperar – só que às barras do tribunal ele jamais iria de moto próprio).

Assim, não é por ter sido levada à justiça do trabalho por seus empregados, não assinar carteira e ser condenada que Cristina Brasil está impossibilitada de assumir o Ministério do Trabalho. É por abuso de poder que a justiça a está mantendo congelada. O presidente Michel Temer estava na plenitude do seu poder, com amparo na lei e na constituição, quando aceitou a indicação do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, não por acaso o pai da cidadã.

O país já estaria no rumo certo se a justiça liberasse Michel Temer para consumar o ato, nomeando a deputada federal para o cargo. Só então, cumprida a regra legal, o Brasil inteiro poderia dar vazão à sua repulsa a que Cristina Brasil seja ministra, seja lá em qualquer ministério que se lhe ofereça. Falta-lhe dignidade moral para exercer qualquer cargo público. Nem parlamentar podia ser, se o povo votasse certo.

Chegar a essa conclusão é tarefa simples: basta percorrer os discursos da deputada, ver o seu comportamento público e terminar com o vídeo gravado numa lancha, ao lado de  quatro cidadãos sem camisa (não são descamisados: estão nus da cintura para cima, como se dizia antigamente, quando se podia tal coisa dizer), cúmplices das declarações ditas pela deputada no fogo da situação – fogo em todos os sentidos do vernáculo.

O pai, famoso cantor de óperas durante a novela do mensalão, condenou a atitude da filha. Correto: deveria levá-la para o seio da família, no refúgio do sacrossanto lar, e dar-lhe a competente reprimenda. É assunto de foro íntimo. Quanto ao público, devia retirar o desastrado nome da filha e se recolher ao banheiro com a companhia de Mozart e Don Giovanni.

Talvez os céus o perdoariam por dar início a mais um capítulo vergonhoso da história de um Brasil torto e sem saída.

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Sexta, 02 Fevereiro 2018 14:27

O suicídio de “Fidelito”

Eu não estava prestando atenção quando do aparelho de TV veio a narrativa da notícia: Fidel Ángel Castro Díaz-Balart, de 68 anos, o mais velho dos nove filhos de Fidel Castro, se suicidara na manhã da quinta-feira, 1º de fevereiro, em Havana.

Dele eu sabia que era o filho mais parecido ao pai, o único do primeiro casamento, com Mirta Díaz-Balart, de uma das famílias mais ricas de Cuba. O casamento chegou ao fim pelo divórcio, em 1955. Mirta se foi para os Estados Unidos e depois para a Espanha, de onde não mais saiu. Levou junto o filho. A família dela é anticastrista. Ela também.

Talvez eu ficasse por aí se as informações não começassem a causar curiosidade e perplexidade. O anúncio da morte de “Fidelito” foi feito pela imprensa estatal, à frente o horrível Granma, que é a voz do dono, o governo. Não era comum. Mais incomum ainda foi admitir que o filho mais velho de Fidel Castro se suicidara. Se o ditador estivesse vivo, é pouco provável que isso acontecesse.

Mais intrigante foi a informação seguinte: há muitos meses “Fidelito” recebia tratamento de uma equipe de médicos para uma depressão profunda, que o levou a ser hospitalizado. Saiu, mas fazia tratamento ambulatorial.

Como se suicidou? Onde estava? Quem o encontrou? Detalhes elementares não foram dados – e continuam omitidos ou desconhecidos. Talvez não interesse aprofundar o conhecimento sobre a vida do filho do ditador que por mais tempo permaneceu no poder. E morreu de morte natural na cama. Da porta da casa dele para dentro, há muita lenda e pouca informação confiável. Ou capaz de penetrar na intimidade das pessoas.

Muito do que soube inicialmente sobre Stálin, antes da abertura dos arquivos oficiais da União Soviética, foi através da filha dele, Svetlana. Ela aparecia em fotos ao lado do pai amoroso. Mas por que se exilou? Por que escreveu aquelas cartas?

Fidel Castro Díaz-Balart não parecia se sentir amado pelo pai. Continha os elementos de um passado que Fidel negara e um presente que ele combatia. A relação entre pai e filho era complicada, mais pelo silêncio do que por qualquer eloquência.

Aliás, ele foi o que mais se destacou entre todos os filhos do líder da revolução cubana, com formação em física nuclear (foi o primeiro engenheiro nuclear cubano), atividade acadêmica e publicação de livros. Mas foi demitido pelo pai da condução da política nuclear cubana por “ineficiência”. Demissão justa? Punição? Raiva? Nunca foi político. Mesmo primogênito, não podia ser herdeiro. Sequer parceiro.

Agora, talvez alguém se interesse pela vida de “Fidelito”, Um detalhe me colocou nessa rota: ele era 21 dias mais novo do que eu. Nascemos no mesmo setembro de 1949. É da minha geração, portanto.

Uma geração que, com maior ou menor intensidade, passou por muita coisa. E talvez tenha chegado a alguma forma de impasse, como o que deve ter levado o filho do ditador a se suicidar.

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Sexta, 02 Fevereiro 2018 14:22

De justiça

A partir do inicio deste ano, 40 milhões de brasileiros tiveram direito a receber um salário mínimo de 954 reais. Em relação ao ano anterior, o reajuste foi de 1,87%.

O acréscimo foi de R$ 17, o menor desde que Getúlio Vargas criou o salário mínimo, quase 80 anos atrás, durante a ditadura do Estado Novo.

O ultraje moral tem uma explicação técnica: a inflação foi de apenas 2,95% no ano passado, a menor em muito tempo, menos da metade do que foi registrado em 2016.

O reajuste do salário mínimo, a ela vinculado, teria que ser mais abaixo. Mantida a estabilidade do custo de vida, mesmo com esse valor irrisório, o poder de compra do trabalhador aumentará.

Nenhum agrupamento de renda é maior do que os que dependem do salário mínimo para sobreviver. Eles são os mais sacrificados. Numa época de crise, como a atual, todos têm que aceitar a cota que lhe cabe de olho nos que ganham menos.

Nesse contexto, é inaceitável que juízes e integrantes do Ministério Público façam campanha pela conquista de maiores ganhos em seus ofícios. A carreira jurídica é a mais valorizada do serviço público. Os membros do judiciário e  do MP ganham, em média, R$ 30 mil.

Podem achar justo agregar vantagens, como a indenização por moradia. Mas devem observar que as principais, que lhes dão autonomia e independência para agir, à frente a inamovibilidade, lhes são asseguradas. Devem reivindicar melhoria nas condições de trabalho e no suporte técnico.

Nada, porém, que aumente despesas. Se querem continuar a ser respeitados e ter um escudo de defesa social contra os poderosos atingidos ou prejudicados pela recente ofensiva contra a corrupção.

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Quinta, 01 Fevereiro 2018 13:56

Lula e o drama brasileiro

A confirmação da condenação na justiça federal de 2º grau não afetou o prestígio popular de Lula. Ele ainda é o maior líder político do país e o mais forte candidato à presidência da república em outubro. É o que diz o resultado da pesquisa do DataFolha, divulgado ontem pelas emissoras de rádio e TV, e hoje pelos jornais.

Lula já está eleito? Essa demonstração de força fará recuar os seus perseguidores, assumidos ou disfarçados? A manifestação do povo obrigará a justiça a voltar atrás na decisão que tomou até agora e terá que inocentá-lo? Não haverá mais o risco de prisão?

Fato real e concreto é a força de Luiz Inácio Lula da Silva. Seu carisma e a legenda em torno dele lhe possibilitam contornar a verdade, quando ela lhe é desfavorável, e dar credibilidade ao seu discurso, mesmo quando falso. Parecer inocente mesmo quando é culpado. Confirmar o que já proclamou: o maior presidente da história do Brasil. E por isso voltará ao cargo.

Lula continua a ter pouco mais de um terço dos votos. É um patrimônio valioso. No momento, único. Podem dizer tudo que quiserem dele, esse bloco de eleitores não mudará o seu voto. Ele é vinculado ao distributivismo da gestão Lula.

Mesmo primário, mesmo sustentado num aumento de consumo sem equivalente poupança, substituída pelo endividamento, é uma conquista real para esses milhões de brasileiros antes marginalizados pela ferooz elite nacional.

Mesmo um projeto verdadeiramente reformista, como o que comandou a antropóloga Ruth Cardoso, a mulher do então presidente Fernando Cardoso, embrião dos programas sociais do PT, foi tímido, vacilante, ambíguo, medroso. Não colheu os frutos das sementes que plantou. A maior parte delas foi espalhada ao vento.

Jader Barbalho tem quase o mesmo terço do eleitorado no Pará. Antônio Carlos Magalhães tinha até mais na Bahia. Ademar de Barros, também excedia em São Paulo, de onde Jânio Quadros saiu para impor a maior vitória de um candidato à presidência da república até então, 1960. Getúlio Vargas é lembrado até hoje, em grande medida porque descendentes dos marginalizados da época dele ainda acolhem o legado que seus antecessores lhes passaram.

Líderes populares, de prestígio e aclamados pelo que fizeram podem se tornar negativos. Lula seria negativo se tivesse vencido Collor em 1989 ou FHC nas duas eleições seguintes. Ele não conseguiria arrumar e ordenar o Brasil, mesmo que a conta dessas mudanças por dentro (principalmente no capítulo escandaloso das privatizações) fosse cara, como foi. Lula jamais criaria uma moeda, como a que resiste até hoje, impávida, o real.

Tocado por sua brilhantíssima estrela, Lula assumiu o topo do poder no país quando já era possível gastar – e errar. Gastou e errou à larga. Cometeu o desatino de colocar Dilma Rousseff para sucedê-lo, na esperança de ser sua eminência parda – como acabou sendo, para tentar salvá-la do desastre total, de a pior presidente da história nacional. O resultado foi um rombo desmesurado, que inclui a figura de Michel Temer.

Se for candidato e se for eleito, Lula voltará ao poder na hora errada, para uma missão para a qual não tem competência, não afina com o seu modo de agir. O Brasil de agora precisa realmente de um estadista. Lula pareceu ser numa conjuntura favorável.

Na de agora, sua face verdadeira aparecerá. Mas talvez os brasileiros venham a pagar um preço ainda mais caro do que o da reforma liberal de FHC. Exceto se o esquema de dar um troco aos pobres e uma grana preta aos ricos for reeditado. E os canais de vazamento da coerrupção forem rebartos, numa volta inversa do parafuso

Depois de quase quatro anos de Lava-Jato e do que aconteceu em sua órbita, não tenho mais dúvidas de que Lula foi o eixo da maior e mais organizada corrupção “sistêmica” que já houve no Brasil. E que essa corrupção contaminou a essência do governo do PT, descaracterizando-o, viciando-o.

O melhor que a justiça pode fazer, como fez a oitava turma do TRF4 no primeiro julgamento, é dar um tratamento profundamente técnico aos processos, seguindo com rigor e honestidade a norma legal para a apreciação e definição dos atos de Lula, afastando a mácula que lhe tentam impor, de uma ação política, de uma vingança, de uma conspiração.

Se, ainda assim, o povo eleger Lula, que arque com as consequências. Também se erra na democracia. Na democracia brasileira, muito, exageradamente. Mas ela ainda é melhor do que o seu oposto, a ditadura.

Ditadura? Nunca mais. Podia ser assim com Lula também.

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Quinta, 01 Fevereiro 2018 13:49

A política e o Ministério Público

Mesmo que Helder Barbalho perca o foro privilegiado, ao se desincompatibilizar do cargo de ministro da Integração Nacional, em abril, para concorrer ao governo do Estado, uma eventual ação contra ele no âmbito da Operação Lava-Jato será desaforada para a justiça federal do Pará e não para a justiça estadual.

Assim, será o Ministério Público Federal quem assumirá o feito, não o estadual – é o que diz uma fonte, corrigindo a observação de ontem deste blog. Com toda razão.

A antecipação da disputa pela procuradoria geral de justiça do Pará se deve à política local, acrescenta a fonte. Observa que tanto o governador atual, Simão Jatene, como o seu sucessor, principalmente se não for da situação, como Helder Barbalho gostariam de exercer o poder de indicar o substituto de Gilberto Valente Martins.

Por isso, há um componente político na divergência entre manter a data atual, de março de 2019, quando um novo governador já estará no cargo, ou antecipá-la para dezembro, com o mandato ainda em curso de Jatene ou de quem o substituir, se ele também se desincompatibilizar para participar da eleição de outubro. Daí o interesse lateral ao jornalístico do Diário do Pará pela questão.

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Quinta, 17 Janeiro 2019 10:20

Maiorana, Barbalho & Cia.

A mais destacada fotografia publicada na coluna de ontem de Carmem Souza foi do casal Ronaldo (Valéria Bitar) Maiorana. A colunista se antecipou em três dias ao aniversário do principal executivo do grupo Liberal, para lhe dar parabéns e desejar "vida longa". Nada anormal numa coluna social. A importância da iniciativa está no jornal no qual ela foi publicada: o Diário do Pará, da família Barbalho. 

É a primeira vez, em muitos anos, ou desde sempre, que um Maiorana aparece no Diário, numa coluna social, com o maior destaque no álbum de fotografias que caracteriza a coluna de Carmem Souza. Os Barbalho voltaram a figurar em O Liberal, revelando quem tomou a iniciativa de acabar com o interdito do lado dos Maiorana. Assim, está consumada a reaproximação pessoal das duas famílias que comandam a imprensa no Pará.

Elas eram concorrentes comerciais, adversárias políticas e inimigas pessoais até setembro de 2017. Romulo Maiorana Júnior foi então destituído do cargo que ocupou ao longo de 36 anos, desde a morte do pai, à frente do grupo Liberal. Aliado do PSDB, que lhe rendeu farta propaganda oficial, ele sustentou uma oposição total aos Barbalho, do MDB, perdendo ou ganhando nas várias batalhas dessa guerra. A cisão interna na empresa familiar e a sua má  situação financeira e mercadológica estimularam os outros cinco irmãos a aproveitar enquanto ele estava de férias na Europa para realizar uma assembléia extraordinária que o destituiu da presidência do grupo Liberal.

As duas partes levaram sua disputa à justiça, mas acabaram fazendo um acordo, dividindo o patrimônio. A partilha tirou o poder que Romulo Jr. utilizava a partir dos seus veículos de comunicação, restringindo-o a um portal e emissoras de rádio. O caminho ficou aberto para a paz política e comercial das duas famílias. Graças a esse acerto, Helder Barbalho exerce o governo do Estado com o apoio dos dois principais grupos de comunicação do Estado. Por quanto tempo e com qual fidelidade, ainda não é possível dizer. A história de Maiorana e Barbalho tem sido uma autêntica montanha russa: ora melhora, ora piora. 

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Sábado, 31 Março 2018 10:38

Governo do po(l)vo

Em qualquer lugar do mundo, mesmo nos países mais ricos, 150 bilhões de dólares é tamanho expressivo para investimentos. Convertido o valor para a moeda nacional, resultando em mais de 500 bilhões de reais, teria que ser de grande impacto, Foi quanto a União repassou ao BNDES nos anos em que o PT decidiu usar a instituição para criar as multinacionais brasileiras, com dinheiro público subsidiado – e muito subsidiado. Como as notórias JBS e Odebrecht, além de empresas para atuarem no Pré-Sal. Sem falar no impulso para que Eike Batista acumulasse a oitava maior fortuna individual do planeta (a propósito, ele e André Esteves, do NTG-Pactual, foram esquecidos pela Lava-Jato).

No dia 29 o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social devolveu mais R$ 30 bilhões ao tesouro nacional, completando a amortização acumulada de R$ 210 bilhões, iniciada em 2015. A aplicação do tesouro foi através de três enormes contratos.  A quitação da dívida, da qual remanescem ainda quase R$ 300 bilhões, vai demorar mais tempo. Se é que será concluída algum dia. Mas ninguém do topo do poder parece interessado em prestar contas dessa transação. A caixa preta permanece lacrada.

Ainda dizem que o governo do PT foi do povo . Residualmente, sem dúvida.

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